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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

o talho, um dos melhores restaurantes de lisboa

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O ambiente

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena desgraça. Primeiro, o nome: alguém, no século XXI, quer ir a um restaurante onde só se sirvam costeletas grelhadas? Depois, o guarda-roupa: alguém, que viu o Star Trek quando ainda andava de calções e meias até ao joelho, quer ser recebido por um empregado com um intercomunicador no ouvido igual ao do capitão Kirk? Finalmente, a localização: alguém, que não se tenha divorciado há três meses, quer ir jantar a um restaurante que fica exactamente entre o El Corte Inglés e o bar Nocturno 76?

Eu sei que é difícil ultrapassar todos estes preconceitos numa única noite, mas, por favor, tente. E, se não conseguir, tente outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra. Até ser capaz. Primeiro, porque O Talho – apesar do nome desastroso e da tableta em neón – não serve costeletas grelhadas. Serve alguma da melhor e mais elaborada carne que se vende em Lisboa. Depois, porque o capitão Kirk é um dos mais simpáticos e eficientes empregados do distrito. E finalmente, porque hoje em dia quase qualquer carro tem alarme – e resiste a duas horas estacionado naquele sítio. Só para o caso de ainda não ter ficado convencido, porque aqui o ambiente é relaxado, sofisticado e com um enorme bom gosto. Do mini-bar de gin onde pode esperar pela sua mesa, à decoração cuidada e despretensiosa, passando pela clientela e pelos detalhes: o corredor para as casas de banho é uma adega com charme e os lavatórios são blocos de pedra rústica. 

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A ementa

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena surpresa. O chef passou um ano a viajar pelo mundo, ficou instalado em casas particulares e aprendeu a cozinhar com as famílias. Isto depois de ter passado por França e pelo Eleven, onde aprendeu o resto. O resultado é uma mistura de genuinidade com sofisticação. Uma mistura de tradição com imaginação. Uma mistura de vintage com moderno. No fundo, uma mistura de Capitão Kirk com Avatar. Quase tudo é óptimo. Algumas coisas são geniais. Muito pouco é vulgar.

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As entradas

No que comemos, só um dos aperitivos falhou: Uma fatia de bacon por cozinhar com vinagre agridoce e beterraba ralada. Foi a primeira e não resultou. Mas foi a única. O segundo aperitivo foi excepcional: um ovo escalfado a baixa temperatura, no ponto ideal, rodeado de farofa de bacon frita e estaladiça, leve e surpreendente que, em vez de uma farinha, parece flocos de neve.

Além de óptimo, o segundo aperitivo serviria como uma fantástica entrada em qualquer restaurante de semi-nouvelle cuisine.

Até as entradas, que poderiam parecer normais, conseguem surpreender. O bloco de foie gras corado em sal é apenas bom, mas o facto de vir acompanhado por um mini-croquete de chocolate e uma mini-madalena sobre doce de laranja faz toda a diferença. É como ter o dr. Spock com a cauda do Avatar. A ceviche de novilho com mousse de batata doce é arrebatadora.

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Os pratos principais

Se ainda conseguir chegar aos pratos principais, por favor, divida. Aqui vale a pena experimentar tudo o que puder. O bife tártaro vem acompanhado com maionese de rábano e um pouco de mostarda montadas uma sobre a outra como se fosse um ovo estrelado rebentado. Ao lado tem um shot de vodka para misturar com a carne. Depois de mexer tudo, enrola o resultado final numa alga japonesa de sushi. É tudo bom. E é todo bom.

A seguir prove a barriga de porco cozinhada durante 18 horas num recipiente de barro em banho maria. Vai depois a tostar a pele e vem acompanhada por uma massa de pevides cozinhada com tinta de choco e molho de berbigão. Do lado direito, há uma espuma de alho; do lado esquerdo, uma espuma de wasabi. Fabuloso! É evidente que não deu para sobremesas.

O serviço

É claro que em qualquer restaurante da Lisboa moderninha, o chef seria um pedante insuportável. Mas não aqui. Ele chama-se Kiko, sorri para os clientes e fala de comida, de viagens e do Mundo com a mesma alegria com que um miúdo finta um colega na escola e marca golo. Ele gosta do que faz e isso nota-se no resultado final. O capitão Kirk controla toda a sala como Ronaldo controlou o jogo de Portugal contra a Suécia. E tem uma vantagem em relação ao avançado do Real Madrid. É tão competente como simpático e modesto. Este é claramente um restaurante onde cozinheiros, chef e empregados gostam de estar. E onde os clientes têm tudo para concordar.

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O bom 

A simpatia de toda a gente

O mau 

A placa de neón à porta

O óptimo 

A comida, em especial o bife tártaro

 

E só para acabar, um abraço para si onde quer que esteja,

Ele

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