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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

a comida maravilhosa (e o calor insuportável) do cantinho do avillez em lisboa

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Entrar no Cantinho do Avillez num destes dias de calor típico de Agosto é como cruzar a Etiópia de uma ponta à outra ao meio-dia. Pelo menos, se ficar na sala em que nós ficámos. É que, apesar de ser a última sala inaugurada do restaurante em Lisboa, tem um ar condicionado que funciona ao ritmo de um tractor alentejano a rasgar furiosamente a auto-estrada. Pode pedir para abrir a porta, para fechar a porta, para entreabrir a porta. Pode pedir para virar as duas ventoinhas para si. Mas esqueça. A única solução para transformar esta sala do restaurante num sítio fresco é conseguir convencer José Avillez a comprar um ar condicionado novo. Ou então fazer-se acompanhar daquela T-shirt de manga cava que tem escondida no armário ao lado dos calções de licra de ciclista.

Feito este reparo, a grande questão coloca-se: vale a pena ir ao Cantinho do Avillez? Vale sim, senhor. Por isso, escolha um dia mais fresco, prepare a T-shirt de manga cava e faça a sua reserva.

 

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A ementa 

Os motivos para se fazer uma visita ao Cantinho começam logo quando lhe trazem para a mesa o couvert (€2,85 por pessoa). A manteiga é feita com trufas e, além de se sentir bem o sabor da trufa, vem muito gelada, o que é uma delícia em dias com muito calor e pouco ar condicionado. O pão é de Mafra e vem em finíssimas e estaladiças tostas (apenas ligeiramente queimadas demais) ou em fatias frescas e fofinhas. E também lhe trazem uma óptima broa de milho com a côdea crocante.

Mas há mais. Ao lado da manteiga, vem um creme de tomate com azeite e alho, que é bom e parece um gaspacho, e umas agradáveis azeitonas marinadas.

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As entradas 

Nesta fase do jantar, já estamos a salivar com o que poderá vir a seguir à manteiga de trufas. E salive à vontade porque há motivos para isso. Como boa família numerosa que somos, pedimos vários pratos para dividir.

Primeiro, chegou um gaspacho de cerejas com requeijão (€8,50) que é qualquer coisa de indigno de descrever. Feito ainda com manjericão e tomate, traz uns croutons e pequenas lascas de presunto crocante por cima. É um prato divinal que consegue ser surpreendente e doce sem enjoar.

A segunda entrada foi também fria: um tártaro de atum (€9,50), provavelmente o melhor que comi até hoje. Além de o peixe vir fresquíssimo e cortado em suculentos cubos, é temperado com uma mistura de sabores asiáticos, com destaque para o óleo de sésamo e uns rebentos muito fininhos por cima. 

A seguir o nível baixou ligeiramente com umas empadas de perdiz (€5 por 2 empadas) que estavam apenas óptimas. Traziam a massa fininha e leve e o recheio cremoso é feito com bacon e cebolinhas. Pequeno detalhe que faz toda a diferença: foram servidas ainda quentes.

E as entradas quentes acabaram com uns fantásticos ovos à professor século XXI (€7,50), uma adaptação que José Avillez fez da receita original, criada por um cliente do antigo Belcanto na cozinha do próprio restaurante. Cozidos a baixa temperatura, vêm no ponto perfeito com a clara mal cozida mas branca e a gema totalmente líquida. Por cima levam pão crocante e bacon aos cubos para lhes dar uma discreta ponta de sal.

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Os pratos principais 

Perante o andamento acelerado da refeição, decidimos abrandar um pouco o ritmo da quantidade de pratos. Mas um barco que vai a alta velocidade ainda demora um pouco a parar. Por isso, tivemos de pedir mais três pratos para os cinco (uma das crianças estava numa das várias actividades veranis).

Os pratos chegaram todos ao mesmo tempo, mas eu comecei por experimentar as vieiras salteadas na frigideira com tomate cherry, espargos verdes e batata doce de Aljezur (€19,55). Por mim, até podia ser batata doce da Abrunheira, o que interessa é que estava óptima, saborosa e acompanhava lindamente as vieiras.

A seguir provei o risotto de cogumelos portobello com toucinho fumado e lascas de queijo parmesão (€17,95), feito no ponto, molhado e solto mas onde se notava bastante o sabor intenso dos cogumelos – não é aconselhável para quem não seja fanático por cogumelos.

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E só no fim é que experimentei as fresquíssimas lascas de bacalhau (€17,25) acompanhadas com migas soltas (que são cubos de pão de Mafra crocantes), legumes bem cozidos e consistentes ao trincar, um ovo cozido a baixa temperatura e as famosíssimas azeitonas explosivas. Pequeno grande problema: o prato só traz três azeitonas explosivas e nós tínhamos cinco bocas à mesa. Como as azeitonas são fininhas por fora e líquidas por dentro torna-se ligeiramente complicado dividir. E foi perante este impasse que Ela teve uma ideia luminosa: pedir mais duas azeitonas explosivas. Em vez de duas, trouxeram-nos quatro. Melhor ainda: trouxeram-nas servidas em colheres de amuse bouche, que é a forma ideal de as servir. Em cima do bacalhau, é muito fácil rebentar a azeitona no prato e estragar tudo. Em cima das colheres, é mais fácil rebentá-la na boca: coloca uma garfada de bacalhau e uma colherada de azeitona logo a seguir e vai ver como os dois sabores combinam de forma perfeita.

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As sobremesas 

Sobremesa no Cantinho do Avillez sem avelã ao cubo (mais conhecida por Avelã3) não é sobremesa. E o que é a avelã ao cubo (€5,50)? É uma combinação de três texturas diferentes de avelã: uma bola de gelado no fundo do copo, uma espuma de avelã no meio e uma pitada de avelã tostada picada por cima. O resultado é absolutamente viciante.

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Além da avelã, partilhámos ainda um bom cheesecake enfrascado com cerejas e manjericão (€5,50).

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O serviço 

É sempre agradável, tratarem-no pelo nome quando liga para um restaurante a marcar. Os restaurantes de José Avillez partilham uma base de dados com os nomes e os número de telefone de quem já fez reservas. Ou seja, se ligar para o Cantinho do mesmo número que ligou para o Café Lisboa, eles sabem logo quem é.

O que é menos agradável é estar quatro minutos à espera que lhe atendam o telefone enquanto uma gravação repete: “Obrigado por ligar para o Cantinho do Avillez”. E depois num inglês muito british: “Thank you for calling the Cântinhou do Ávileiss”.

Durante o jantar foram sempre rápidos e muito simpáticos. A disponibilidade para trazer logo mais azeitonas explosivas é o melhor reflexo do que é o serviço aqui.

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O ambiente 

A decoração é simples e agradável. Uma parte da cozinha está aberta para a sala e há pormenores maravilhosos como as canecas do tempo da minha avó em que são servidas as azeitonas e o creme de tomate. Mas infelizmente, quando dentro da sala está um calor etíope, tudo o resto perde importância.

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As crianças 

Tem pregos e um bitoque (€8,75), mas não tem nenhum menu infantil.

 

O bom 

A simpatia do serviço

O óptimo 

A comida, em especial o gaspacho de cerejas, o tártaro de atum e as lascas de bacalhau

O péssimo 

O ar condicionado e o calor insuportável

 

Um abraço para todos os técnicos de ar condicionado onde quer que eles estejam,

Ele

 

Leia aqui sobre outros restaurantes de José Avillez:

 

fotos: paulo barata; cantinho do avillez

 

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