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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

a feitoria, um jantar de sonho num restaurante com uma estrela michelin

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Até aos 10 anos, para mim Michelin era a alcunha que me davam na escola – não por ser rápido, mas por ser parecido com o boneco empneuzado. Aos 20, percebi que Michelin era também a marca dos pneus do meu carro. E só aos 30, entrei no mundo dos restaurantes Michelin. Hoje, com 83 anos e quatro meses, sou um bocadinho céptico em relação a tudo quanto são estrelas.

(Ok, sou capaz de ter exagerado ligeiramente em relação à idade, mas não em relação às estrelas.)

O que para aqui importa é que um jantar num restaurante com uma estrela Michelin é uma experiência, mais do que uma refeição. E a experiência não começa quando uma pessoa se senta à mesa. Começa muito antes, no momento em que pega no telefone e decide que é ali que quer jantar.

 

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- Welcome to Belém Altis Hotel and Spa. Please hold the line, we will be with you shortly.

A gravação bilingue, numa pronúncia perfeita dos arredores do Palácio de Buckingham, poderia ter sido feita pela condessa viúva de Downton Abbey, não fosse tão conhecida a sua aversão a telefones e outros aparelhos futuristas. No meu caso, fiquei três minutos a ouvir a sósia da condessa de Grantham repetir sempre a mesma frase enquanto esperava que me atendessem o telefone. Finalmente, apareceu do outro lado da linha uma simpática senhora que prometeu passar a chamada para o restaurante. Mais cinco minutos de espera. E nada. Só quando a chamada voltou mais uma vez para a recepção do hotel é que finalmente apareceu alguém para tomar nota da reserva. 

- Boa tarde, queria marcar uma mesa para hoje às 21h30.

- Concerteza. Só um momento, por favor.

Trinta segundos depois, voltou.

- Será que é possível fazer a reserva antes às 21h ou às 22h?

Até hoje ainda não descodifiquei qual foi o fetiche com as horas certas, mas achei relativamente indiferente. Marquei para as 21h e, antes de desligar, tive direito a mais uma pergunta.

- Existe alguma restrição alimentar ou alergia que devemos ter em conta?

Tirando todo o tipo de gorduras que me estão a transformar num pequeno Buda, nada. A simpática senhora voltou a repetir todos os detalhes da reserva e despediu-se. Duas horas depois, recebi um telefonema. Era outra simpática senhora a confirmar a reserva e, mais uma vez, a saber se nenhum dos dois tinha restrições alimentares ou alergias.

Oh, senhores! Não, não há alergias nesta casa.

No final, despediu-se simpaticamente:

- Então estarei cá às nove para recebê-lo.

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O serviço 

É claro que, com uma Mulher Mistério como companhia, as nove nunca são nove. Dois vestidos, quatro tops e oito pares de sapatos depois, conseguimos chegar à Feitoria às 21h20. Mas nem o atraso impediu que fôssemos recebidos com um sorriso discreto por uma senhora vestida com um quimono e uma pose entre o militar e o instrutora de ioga. 

Este estilo tipo Mao Tse-Tung é o único problema da Feitoria. Ao longo de toda a refeição, não há uma única falha, um deslize, uma hesitação. Os empregados são permanentemente cordiais, atenciosos, quase mecânicos. A questão é que eu preferia a simpatia à cordialidade, a descontracção à atenção permanente, a espontaneidade à mecânica. É isso que cria um ambiente agradável num restaurante. E é isso que falta um pouco na Feitoria. 

Ao longo de toda a refeição, tivemos sempre pelo menos um empregado num raio de dois metros de proximidade da nossa mesa. E, quando digo pelo menos um, digo às vezes dois ou três. A Feitoria é um restaurante claramente preocupado com os clientes – e isso às vezes pesa demais.

Para Ela, foi o céu na Terra – especialmente quando, ao sentar-se, lhe colocaram um discreto banquinho ao lado da cadeira para poder pousar a carteira. Ela acha que carteira que toca no chão dá sete anos de pobreza, o que é que se há-de-fazer?...

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O ambiente 

À nossa frente, estava um casal estrangeiro: ela com berloques e batom reluzentes, ele com uma bela camisa de gola dupla ao inigualável estilo 7 Camicie. À nossa esquerda, uma mesa de franceses na pré-reforma que se revelou o grupo mais animado e o único capaz de falar num tom acima do sussurro. Atrás de nós, um discreto casal de portugueses com a animação típica de quem comemorava os 35 anos de casados. À nossa direita, alguns empregados preocupados em saber se faltava alguma coisa.

A decoração, em tons de castanho escuro, preto e dourado, é sóbria, elegante e discreta. Com uma enorme janela que abre para o rio Tejo, a sala tem uma iluminação forte demais para se conseguir ver a vista à noite. As cadeiras são muitíssimo confortáveis e as pinturas em estilo oriental jogam com os quimonos das empregadas.

Não é um ambiente leve nem jovem – mas também não é isso que se consegue num restaurante com o peso de uma estrela Michelin às costas.

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A ementa 

É nesta fase que me pergunta: mas então não vale a pena ir à Feitoria?

Pergunte lá outra vez que eu não ouvi bem...

Já que pergunta, eu respondo: vale muito a pena ir à Feitoria. Não pelo ambiente, não pelo stress de tentar manter a estrela Michelin – mas pela comida. Pela fantástica comida. 

 

Os aperitivos do chef

Mal nos sentámos na mesa, pedimos um copo de vinho branco enquanto mergulhávamos na extensa ementa da comida e na gigantesca carta de vinhos. 

E é aqui que começa o festival – tanto de sabor como de apresentação. Antes de qualquer couvert, trazem-lhe uma árvore de boas-vindas: um tronco feito de grão de bico para comer com uma óptima geleia de maçã, ao lado um consomé de cogumelos com um raminho de ervas e, no centro, um ramo de uma árvore no qual estão apoiadas algumas maçãs que, na verdade, são feitas de foie gras por dentro e geleia por fora. Como pode ver pela apresentação, nesta fase já estávamos conquistados.

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O segundo aperitivo do chef é a prova de que, além de se comer bem, é possível sorrir com uma boa graça na Feitoria. Para a mesa vem um cone feito de folha de jornal – neste caso o The New Fork Times, com textos sobre comida – que traz lá dentro uma air baguete (muitíssimo leve) feita de queijo de Azeitão com uma finíssima fatia de copita de Barrancos por cima. Ao lado vem um stick com a copita e azeitona em pó.

Tudo isto é incrivelmente delicioso e totalmente surpreendente. É uma mistura perfeita de imagens, sabores e texturas, que se conjugam todas na perfeição: desde a gordura da copita ao vazio da baguete. Mas, depois deste momento José Quitério, é melhor voltarmos à comida, porque os aperitivos do chef só acabaram quando nos trouxeram uma tiborna com escabeche de cavala, rabanetes e rebentos de coentros.

 

O couvert

Terminada esta parte, acha V. Exa. que passámos para os pratos? Pois está redondamente enganado. O passo seguinte foi o couvert, que Ela já estava a sentir a falta de uma fatiazinha de pão. E as escolhas são muitas: pão de muesli, focaccia, pão de cenoura e salsa ou pão com sementes de sésamo. É claro que entre as duas bocas, um pequeno reforço da dose e o tímido espanto embascado dos empregados, conseguimos provar todos. O meu preferido foi claramente o de cenoura e salsa pela originalidade, Ela elegeu o de muesli. Para acompanhar, trazem-lhe um pouco de azeite, flor de sal e duas manteigas: uma de Esposende e outra de Azeitão – de longe a minha manteiga preferida pelo toque a queijo que sente ao provar.

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O amuse bouche

E, ultrapassado o couvert, é que vieram os pratos, certo? Errado novamente. Quem é que lhe disse que num restaurante destes passava fome? Antes das entradas, ainda veio um amuse bouche que dava pelo nome de falsas coxas de rã e que na verdade eram umas asinhas de frango com molho Teriaki e sementes de papoila. Servido em cima de um sapo das Caldas. Foi o menos arrebatador de todos – quer a nível visual, quer a nível de sabor.

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As entradas

Na Feitoria, tem vários menus à escolha, mas como este festival de aperitivos, couverts e amuse bouches é um verdadeiro menu de degustação, optámos por pedir à carta. Ela escolheu um tártaro de barriga de atum e caviar Oscietra, tataki, ramen de muxama e rabanetes (€25). No fundo é uma entrada quente e fria em que o atum está no centro: quente na versão tataki já que vem mergulhado num saboroso ramen de muxama e rabanetes, e frio na deliciosa versão tártaro. A dificuldade aqui é escolher qual deixamos para o fim, porque as duas versões são óptimas, mas Ela começou pelo frio e terminou com o quente (se bem que cheguei a vê-La a experimentar os dois ao mesmo tempo...)

Eu escolhi um ravioli de rabo de boi com cogumelos selvagens e trufa branca de Alba que estava simplesmente perfeito. A carne dentro do ravioli quase se desfaz na boca de tão bem cozinhada, o misto de cogumelos selvagens é delicioso, mas o melhor de tudo é o que está no meio: uma emulsão de trufas que é como uma espuma translúcida e tão leve que seria capaz de voar ao meu primeiro espirro. Além de tudo, a emulsão tem um delicado sabor a trufas que se complementa com as enormes trufas laminadas espalhadas pelo prato. Foi claramente o melhor da noite.

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Os pratos principais

Nos pratos principais, Ela ganhou aos pontos – ainda bem que dividimos! – com o seu veado com copita de Barrancos, feijão papo de rola (é raro encontrar, mas muitíssimo saboroso e mais leve para a digestão), cogumelos e uvas (€35). Feita mesmo no ponto, a carne estava simplesmente deliciosa e a conjugação das uvas com a copita e o feijão típicos portugueses, perfeita. 

Eu pedi uma segunda entrada, encantado com a perdiz vermelha com escalope de foie gras e dióspiro (€27). No prato, o peito da perdiz vem isolado e ao lado a coxa é transformada num pequeno croquete. O problema é que a coxa é a minha parte preferida da perdiz – por isso dispensava a transformação – e o peito acabou por secar ligeiramente. Além do mais, o croquete feito com a perna não surpreende em nada. O melhor do prato acaba por ser o escalope de foie gras, que estava fantástico, e as várias formas de apresentar o dióspiro – desde uma óptima compota até ao fruto fresco e delicioso.

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As sobremesas

Com tanta e tão boa variedade de sabores, dividimos um chocolate com fava tonka, caramelo e flor de sal (€16,50). Só a ligação do chocolate com a flor de sal já seria perfeita para mim, agora juntar-lhe as sementes de fava tonka, o crumble de baunilha e o caramelo é o céu na Terra.

Mas, mais uma vez, como seria de esperar, uma sobremesa na Feitoria não é só uma sobremesa. Antes, vem para a mesa uma pré-sobremesa: uma bonsai de laranjeira com umas bolas de tangerina em cima. E esta foi outra experiência divinal: as finíssimas bolas com capa de chocolate e sumo natural de tangerina por dentro. Mal dá a primeira trincadela na bola, o sumo fresco da tangerina rebenta-lhe na boca. 

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O café

Aqui paga €4,5 por cada café. Mas é dinheiro bem gasto. Com o café, trazem-lhe para a mesa uma selecção de trufas: uma trufa de chocolate maravilhosa, um bombom de chocolate e avelã fantástico, uma bolacha de sementes fina e estaladiça e uma goma de maracujá deliciosa. Tudo aqui é uma experiência diferente e inesquecível. E sabe o que é o melhor de tudo? É muito. E é muito bom.

 

As crianças 

Não é definitivamente um restaurante para crianças.

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O bom

A apresentação e a surpresa de cada prato

O mau

O ambiente ligeiramente frio e distante

O óptimo

O ravioli de rabo de boi, o veado, os aperitivos e as bolas de tangerina

 

Um abraço para o boneco rechonchudo da Michelin onde quer que ele esteja,

Ele

 

fotos: feitoria

O Casal Mistério é colaborador habitual do site Lifecooler

 

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