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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

a melhor sugestão para jantar este fim-de-semana: os divinais e saudáveis petiscos da nova peixaria da esquina, mas... (tem de haver sempre um mas...)

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Uma hora e cinco minutos é o tempo que o Carlos Lopes demorou a correr 21 km na maratona, é o tempo que o Manoel de Oliveira demorou a contar um terço da história de Vale Abraão e é o tempo que eu demorei a conseguir sentar-me numa mesa reservada na nova Peixaria da Esquina. Confesso que, perante a catástrofe horária, ainda ponderei refastelar-me numa sala de cinema a ver Non, ou a Vã Glória de Mandar enquanto esperava mas, apesar de tudo, preferi encostar-me a uma das mesas altas que o restaurante tem na rua enquanto saboreava pacientemente um espumante oferecido pelos empregados para compensar o desastre.

O problema estava num casal que tinha ido jantar no primeiro turno do restaurante e teimava em manter-se sentado a passar o tempo. O que vale é que nós telefonámos antes e, ao percebermos que a mesa estava atrasada, resolvemos passar primeiro pelo Gin Corner, no Mercado de Campo de Ourique, ali ao lado, onde bebemos um magnífico London Nº 3 com casca de laranja, canela e tónica Fever Tree Indian (€11). E, com isso, a espera de uma hora e cinco minutos até pareceu passar mais depressa.

 

 

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O ambiente

Ultrapassado esse demoradíssimo detalhe, vamos ao que interessa. Vítor Sobral é um dos melhores e mais inteligentes chefs portugueses. E foi essa inteligência que o levou a transformar a sua antiga Cervejaria da Esquina – que era essencialmente uma marisqueira razoável com um bom prego do lombo – numa Peixaria da Esquina – que é fundamentalmente um restaurante criativo e surpreendente à volta de peixe e marisco.

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E isso trouxe algumas vantagens para lá da ementa. O espaço ficou mais arejado, desapareceu o enorme aquário onde se passeavam as lagostas e surgiram umas mesas altas com umas cadeiras também altas que, apesar de terem um encosto curto para as costas, não são nada desconfortáveis. Na parte superior do espaço, há cadeiras com cores, mesas normais e umas canas de pesca penduradas no tecto. Resumindo: o espaço continua clean, simpático e com muita luz.

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O couvert

Quando nos sentámos à mesa, tínhamos à nossa espera um cesto com pão saloio e tostas fininhas e crocantes e um prato com salmão curado com pickles de cenoura e funcho, cebolinho picado e uma óptima e levíssima emulsão de amêndoa. Não sei se já reparou, mas não coloquei o preço. E existe uma razão para isso: foi a segunda forma de o restaurante pedir desculpa pelo atraso. Vamos lá esclarecer alguns pontos para deixarmos este tema tal como saímos do restaurante: com os pratos limpos. Um atraso de uma hora é uma desgraça. Tal como um golo na própria baliza ou o resultado eleitoral de António Costa. Mas acontece. E tudo se resolve dependendo da forma como se lida com o problema. Com simpatia, pedidos de desculpas e agrados destes, para nós o problema ficou resolvido à segunda garfada.

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Os petiscos

A Peixaria da Esquina é a tasca ideal para quem ainda não perdeu a coragem de se pesar. Enquanto num restaurante de petiscos partilhamos croquetes de alheira e ovos mexidos com farinheira, aqui partilha-se atum marinado ou vieiras coradas. Resultado: não precisa de cortar relações com a balança.

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Nós fomos com um casal de amigos e começámos por abdicar do couvert: manteiga, paté e Queijo de Entorna. Primeiro porque tivemos a tal simpatia dos empregados, depois porque aqui existe um delicioso casco de sapateira (€13,50) que não vem carregado de maionese como é habitual em algumas marisqueiras. A pasta é feita quase só de sapateira, com cebolinho picado por cima, e tem tanto de simples como de fresca. Além disso, vem acompanhada por umas tostas saloias fininhas. E esta combinação é claramente mais agradável do que um básico pão com manteiga. Ainda por cima, como o casco está pronto a servir chega à mesa com a mesma velocidade supersónica de um couvert.

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Depois optámos por um robalo marinado (€9,80) com coentros, malagueta, tomate seco, uns mirtilos mínimos e uns rebentos de rúcula por cima. O molho estava muito ácido, mas eu adorei. A mistura dos mirtilos com o tomate seco é uma dupla invencível.

A seguir, chegou aquele que é uma das perdições deste restaurante: as ostras marinadas (€9,80) com pêra (em puré e em pedaços), gengibre, limão e rebentos de rúcula por cima. Vieram quatro ostras fresquíssimas que ficam maravilhosas quando misturadas com o doce da pêra.

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O jantar continuou com umas óptimas lapas chapeadas (€12,90) com molho de manteiga de alho, limão e salsa (um dos mais deliciosos e desperdiçados mariscos da costa portuguesa – quase só são apanhadas nos Açores e na Madeira, quando existem às paletes no "continente") e umas vieiras coradas (€12,90) com emulsão de maracujá e cebolinho – o que dá um agradável toque doce que liga lindamente com a textura suave das vieiras.

E como a única coisa que me faria trair a minha querida Mulher Mistério seria uma sedutora dose de lingueirão, não resisti a terminar esta parte do jantar com um magnífico e simples lingueirão na chapa (€12,80) com limão para espremer por cima – mais um injustiçado do mundo do marisco.

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As sobremesas

Como não seria de esperar outra coisa da minha prezada Mulher Mistério, para Ela um jantar sem sobremesa é como um gin sem água tónica. E foi assim que caímos nos braços de um soberbo leite creme (€4,50). Por cima, está protegido por uma grossa camada de açúcar queimado que parece um vidro à prova de bala. Quando consegue partir esta capa estaladiça, surge um creme feito com baunilha de São Tomé macio e irresistível.

Além do leite creme, dividimos uma fantástica tarte de caramelo (€5,50) consistente e muitíssimo equilibrada, salpicada com pistácios partidos e tostados.

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O serviço

Mais importante do que a espera de uma hora e cinco minutos, foi a forma como os empregados lidaram com o problema: foram atenciosos a pedir desculpa e simpáticos a compensar a espera. No final, quando pedimos um último prato e perguntámos se a cozinha já estava fechada, a resposta foi imediata:

– Já fechou, mas com o tempo que estiveram à espera podem pedir o que quiserem.

Apesar da confusão do espaço cheio e de algumas discretas repreensões de Vítor Sobral aos empregados, correu tudo bem.

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As crianças

Não há um menu infantil. O máximo que encontra aqui é um bom prego do lombo de novilho (€10,50) ou um bitoque (€17). Convenhamos que os preços estão relativamente distantes de um prato para crianças.

 

O bom

A atenção do serviço

O péssimo

A espera de uma hora

O óptimo

A comida, especialmente as ostras marinadas com pêra.

 

Um óptimo jantar para si onde quer que tenha de esperar,

Ele

 

fotos: peixaria da esquina 

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.