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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

adega velha, o melhor restaurante do país para almoçar enquanto ouve o cante alentejano mesmo ao lado

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A melhor coisa do cante alentejano é a expressão "cante": não há cá cantos ou cantares, há cantes, assim mesmo entre a pronúncia cantada do Alentejo e a pronúncia poupadinha dos Açores (os 30% finais de cada palavra ficam sempre por dizer).

A segunda melhor coisa do cante alentejano é a comida alentejana: é normalmente à volta de um balcão cheio de copos de vinho, fatias de queijo, tiras de presunto, rodelas de enchidos e maravilhosos nacos de pão ainda quentes e estaladiços que se canta o cante. E, por isso, quando a Unesco eleva o cante alentejano a património imaterial da humanidade, está a elevar com ele, e sem saber, a "comide" alentejana a património material do planeta.

Eu, por mim, já decidi: este fim de semana coloco na cabeça uma boina à Janita Salomé e faço-me à estrada a caminho do melhor sítio do mundo para almoçar enquanto se ouve um grupo de alentejanos a cantar o Eu Ouvi Um Passarinho.

 

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O ambiente 

Não estou evidentemente a falar de um grupo coral alentejano, afinado e vestido a rigor, à caça do primeiro turista com quem se cruza na planície.

Nã, senhor...

Estou a falar de um grupo de amigos que se junta a seguir ao almoço, na adega, a beber um copo de vinho, a conversar e a cantar um pouco. E a adega chama-se Adega Velha (escusa de procurar no Facebook porque isso é coisa que ainda não chegou aqui – nem vai chegar). Fica mesmo no meio da vila de Mourão e é uma antiga adega transformada em restaurante típico. Mas, mais uma vez, quando digo restaurante típico, não é restaurante típico atolado em galos de Barcelos para conquistar o americano de sandálias e meias brancas. Não. É um restaurante mesmo típico.

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A adega é propriedade de um alentejano de Mourão que recuperou o espaço que está na família há décadas mantendo tudo o que é original: as pipas onde se guardava o vinho, o chão irregular de xisto, as paredes com dezenas de palmos de espessura e uma colecção invejável de rádios antigos. À entrada, ficou o balcão onde os homens de Mourão se continuam a reunir para beber um copo entre amigos. Mais para dentro, foram colocadas umas mesas rústicas para servir almoços e jantares, ao lado de umas cadeiras duras e de uns bancos corridos.

Aqui é como se estivesse em casa do dono. Ele vai passeando de mesa em mesa com um copo de vinho na mão, enquanto conversa com os clientes. À entrada, os seus amigos bebem uns copos enquanto cantam e conversam. E é neste cenário maravilhoso que se podem provar alguns dos melhores pratos alentejanos.

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A ementa 

Eu poderia ficar aqui centenas de milhares de caracteres a falar da maravilha que é o pão alentejano. O miolo mole, a côdea que estala nos dentes... Mas, mais importante do que isso, é um pão que sabe a pão, o que hoje em dia começa a ser uma raridade. Mal me sentei, colocaram-me à frente um cesto deste pão, umas azeitonas verdes pisadas e deliciosas e um queijo fresco de ovelha caseiro (vade-retro ASAE!). Para compor, chegou ainda um paio daqueles que quase se desfazem na boca. Isto, claro, não há sempre, porque, tal como em casa dos amigos, a comida vai variando de vez em quando.

Mas o melhor prato que pode comer de entrada é feito com espargos bravos apanhados no campo ali à volta e que são tão fininhos que parecem palhinhas da festa do seu filho. Na Adega Velha, os espargos são servidos com ovos mexidos e chouriço. É o sonho de qualquer herbívoro em fase de adaptação.

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Os pratos principais

Também aqui é quase tudo caseiro. O cozido de grão é delicioso (traz carnes, enchidos e um pouco de hortelã) e nunca acaba – basta pedir mais um pouco para lhe voltarem a encher a travessa. Se não gostar muito de grão, escolha a sopa da panela, que tem quase tudo o que o cozido tem menos o grão. Vem acompanhada com lascas de pão da véspera, que é como se deve servir. Há ainda uma boa perdiz estufada – mas não tão boa como a sopa ou o cozido – e um divinal prato de feijão com chouriço.

Se quiser peixe, tem uma única e estratosférica opção: uma óptima sopa de cação com coentros que também vem com lascas de pão da véspera. Tudo isto vem para a mesa em tradicionais panelas de barro e é acompanhado por um bom vinho feito pelo proprietário e armazenado nas gigantes pipas espalhadas por toda a adega.

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As sobremesas

Este deveria ser um assunto proibido para cardíacos, por isso vou ser telegráfico: encharcada, bolo rançoso, manjar real. Stop. Se quiser saber mais detalhes sobre estas pequenas preciosidades feitas com uma quantidade de ovos suficiente para levar à falência qualquer aviário da Estremadura, o melhor é procurar pela Internet que eu não me arrisco a ser expulso de casa por entrar em pormenores que podem constituir um atentado à dieta Dela.

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O serviço 

Não é bem um serviço, é um grupo de amigos. O dono conversa consigo, serve-se do seu vinho, recita poesia e canta o cante. Os empregados dão-lhe uma ajuda, trazendo a comida para a mesa e levantando os pratos sujos. Mas não vá para aqui à espera de homens com laço ao pescoço e mulheres de touca na cabeça. Este é um restaurante para amigos e o serviço tem tanto de simpático como de informal.

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As crianças 

O espaço é descontraído e os miúdos podem brincar descansados na rua onde passam poucos carros. Mas as refeições costumam demorar e a comida é pesada. O único prato mais infantil é o lombo de porco assado.

Um último conselho antes de entrar no carro a caminho de Mourão: marque mesa porque costuma estar cheio ao fim-de-semana. Agora ouça lá uma receita de açorda alentejana cantada pelos clientes habituais da Adega Velha e comece a pensar no seu almoço de sábado.

 

 

O bom 

O ambiente descontraído, a decoração e os cantares alentejanos

O mau 

Os bancos duros para sentar

O óptimo 

Os espargos bravos com ovos mexidos e a comida típica

 

Um abraço para todos os cantes alentejanos onde quer que eles estejam,

Ele

 

fotos: visit portugal e trip advisor

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