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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

este é um dos melhores restaurantes do porto (e tem um dos melhores bolos de chocolate do país): chega para o fazer ler este texto?

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Há alguma coisa melhor do que um restaurante onde se come maravilhosamente? Há! Um restaurante onde se come maravilhosamente por um preço simpático. E, neste caso, quando falamos de simpático não falamos de sorrisinhos na cara – falamos de sorrisinhos na carteira.

A Casa de Pasto da Palmeira, em plena Rua do Passeio Alegre, no Porto, é isso tudo: um restaurante com uma comida maravilhosa e surpreendente, com uma esplanada mesmo de frente para o Douro e com preços tão baixinhos como a perna esquerda do Marques Mendes. O culpado de tudo isto chama-se João Pupo Lameiras e, aos 30 anos, é já, para mim, um dos melhores chefs portugueses.

 

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Além de conseguir idealizar pratos fantásticos e muitíssimo bem equilibrados, é capaz de surpreender das formas mais criativas e inesperadas. Já tínhamos percebido isso quando fomos ao delicioso LSD (pode saber mais detalhes aqui) e confirmamos na Casa de Pasto da Palmeira, onde Lameiras já foi chef e agora é responsável pela carta (actualmente está como chef no Bacalhau, na Ribeira).

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O ambiente

Mas antes de o ver a si prender o babete à volta do pescoço para se deliciar com maravilhas como uns finíssimos chips de raiz de lótus, vamos mostrar o espaço que também vale a pena.

Se estiver bom tempo, não deixe de tentar uma mesa na esplanada cheia de charme, em frente ao Douro. De dia, pode ver o rio enquanto aproveita o sol; à noite, distribuem pelas mesas uns frappés iluminados e coloridos que dão um ambiente irresistível ao espaço. De resto, as mesas pequeninas e as cadeiras despretensiosas tornam o sítio a escolha perfeita para um jantar romântico.

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No interior, a decoração mistura bom gosto com sentido de humor. Desde candeeiros em forma de gente a baldes de flores pendurados nas paredes, passando por várias antiguidades, há de tudo. As cadeiras à frente do balcão, por exemplo, são todas diferentes e os pratos onde a comida é servida são de vários serviços. Tudo isto dá imensa cor e um óptimo ambiente ao local.

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A ementa 

Há um hambúrguer, um prego do lombo, umas tábuas de queijos e presuntos e uma imensidão de petiscos, que variam entre os €4,5 e os €14. Depois, é comer e dividir.

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O couvert 

É a única coisa da ementa que não tem nenhuma surpresa. Servido num balde de plástico, vem com vários tipos de pão e um pote com um pouco de azeite para molhar. Custa €1,10 por pessoa.

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A sopa 

Aqui, sim, começa o festival. O gaspacho de cereja (€4) é a única sopa da ementa, mas chega perfeitamente. Servido fresco e com a textura suave e aveludada, tem o delicioso toque doce da cereja. Além disso, traz um pouco de blue cheese forte e cremoso que contrasta lindamente com a fruta e umas fatias fininhas de presunto de pato curado que dão o elemento salgado. Se gosta de sopa fria, como eu e a minha querida Mulher Mistério, não pode deixar de provar isto. Nós pedimos duas colheres e dividimos esta maravilha sem qualquer pudor nem nódoas na camisa – mesmo apesar do olhar céptico da senhora do lado.

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Os petiscos 

O fantástico almoço – ainda por cima num dia de sol e calor – continuou com uns chips de raiz de lótus (€4,50) que são outra perdição. É claro que, mal eu pronunciei a palavra "chips", os olhos da minha querida Mulher Mistério esbugalharam-se na minha direcção como se eu tivesse viajado num DeLorean tresloucado até 1952 para ser repreendido por um professor primário de palmatória em punho. E, só depois de explicar à minha adorável Ela que a raiz de lótus tem apenas 74 míseras calorias por cada 100 gramas, que é uma fantástica fonte de fibras, que é carregada de vitaminas e que é à prova de toda e qualquer dieta, é que recebi um segundo olhar de clemência.

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E foi por isso que me deliciei com uns chips finíssimos e hiper-estaladiços, muitíssimo bem fritos (ups, não devia ter usado esta palavra à frente Dela). Além do mais, vinham acompanhados por um molho de ostra e um montinho de sal misturado com raspas de lima e limão. Eu preferi claramente os chips polvilhados com o fantástico sal cítrico ao molho de ostra. 

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A seguir, dividimos uma fantástica salada de confit de pato com vinagrete thai (€8,50). Vem servida com alface (um bocadinho rija demais para o meu gosto), um óptimo confit de pato a desfazer-se e muito saboroso, uns amendoins, cebola roxa, pimento, rebentos de soja e – pára tudo – lichias. Eu sou um ferveroso militante anti-lichias. Gosto tanto daquele irritante sabor a flores como do barulho de um garfo a raspar numa superfície de metal. Mas... adorei esta salada. No meio de toda aquela mistura de sabores muitíssimo bem temperada e, contrastando com a gordura salgada do pato, passa lindamente.

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E eis que chegámos ao pináculo da cozinha de João Pupo Lameiras: o cevadotto (€12). E do que se trata essa preciosidade, pergunta V. Exa.? Muito bem perguntado, respondo eu. E depois acrescento: o cevadotto é um risotto de cevada, servido num tachinho pequeno. Além de mais leve, mais suave e mais macio do que o risotto, é também muito mais surpreendente e saboroso.

Este levava três gambas grandes e suculentas, umas fantásticas folhas de alga nori e salicórnia, uma planta que parece um espargo verde muito fininho e que cresce nas margens das rias, absorvendo grande parte do típico sabor a mar. Misturada com a alga nori, a salicórnia faz uma combinação perfeita para dar um sabor único ao cevadotto. O prato tinha um ligeiríssimo toque picante, o que o tornava ainda mais tentador.

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Antes de passarmos às sobremesas, pedimos aquele que, para mim, foi o pior da tarde: uns auto-denominados queques de alheira de caça (€7) que, no fundo, são uns rolos de massa estaladiça demasiado gordurosos e recheados de alheira e grelos. Vêm ainda acompanhados por um molho agridoce que está longe das minhas fantasias.

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A sobremesa 
Levante-se, por favor, que esta sobremesa exige respeito. Já está de pé? Então vamos a isso. Chama-se Bolo de Chocolate da Sandra Picante (€4,50), mas não é a Sandra que é picante, é mesmo o próprio do bolo. O bolo é consistente e servido gelado. Além disso, não é muito doce e traz duas finíssimas camadas de merengue caseiro. Mas o que o torna neste portento da Natureza é a malagueta que se começa a notar com maior intensidade à medida que vai mastigando. A acompanhar, vêm ainda umas natas batidas sem açúcar que ajudam a suavizar os sabores. A combinação do chocolate forte com o picante é divinal e a textura do bolo gelado torna tudo isto qualquer coisa de outra galáxia.

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O serviço 

Alerta à população: não aceitam reservas. É por ordem de chegada, o que quer dizer que pode ser que não seja. E isso é inaceitável. A seu favor, está o facto de a Casa de Pasto da Palmeira estar aberta todos os dias do meio-dia à meia noite. Por isso vá cedo ou então vá tarde, mas evite as horas de ponta.

Nós plantámo-nos à porta do restaurante ainda antes das 13h e conseguimos uma mesa na esplanada. O serviço foi sempre rápido, simpático e atencioso, mas o assédio de quem passa sobre as mesas vagas da esplanada é permanente.

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As crianças 

Não tem menu infantil.

 

O bom 

O espaço e a esplanada

O mau 

Não aceita reservas

O óptimo 

A comida, em especial o cevadotto, o gaspacho de cereja e o bolo de chocolate picante

 

Um óptimo petisco para si onde quer que esteja,

Ele

 

fotos: casa de pasto da palmeira; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.