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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

este é um dos pratos mais deliciosos que comemos na vida (e custa €7,50)

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Jantar na Taberna da Rua das Flores a um fim-de-semana é um programa que começa durante a tarde. Tal como outros restaurantes de Lisboa, esta taberna minúscula mesmo ao lado do Bairro Alto, não aceita reservas. Ou melhor, não aceita reservas por telefone. Se quiser mesa, tem de passar por lá no próprio dia e deixar o seu nome enquanto olha, olhos nos olhos, para o empregado. Depois vai beber um copo calmamente e volta à hora marcada.

Não sei exactamente porque é que existe ali esta aversão ao telefone, mas a verdade é que, com uns 15 minutos de atraso, o esquema funciona. E mesmo que não funcionasse eu faria o que fosse preciso para provar o divinal picadinho de carapau salpicado com uns minúsculos e estaladiços camarões krill. Mas já lá vamos. Antes, é preciso prepará-lo para a logística.

 

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A reserva

Fomos jantar, numa sexta-feira, com um generoso casal amigo que se ofereceu para tratar das reservas enquanto nós gravávamos clandestinamente mais uma rubrica semanal para a Rádio Comercial. Os nossos representantes chegaram, pontualmente às 19h, à porta da Taberna da Rua das Flores, para encontrarem outros cerca de 30 empenhados futuros clientes a tratarem também de assegurar a sua mesa. 

Dez minutos depois, a missão estava cumprida. Tínhamos de nos apresentar novamente à porta do restaurante, uma hora e quarenta e cinco minutos mais tarde, para fazermos nova prova de vida e eventualmente conseguirmos o nosso lugar sentado. É durante este tempo de espera que pode aproveitar para passear pelas ruas do Chiado, para ir beber um copo ao novíssimo Topo Chiado (aqui), para petiscar umas ostras no terraço do Hotel do Chiado (aqui), ou para saborear um gin tónico no fantástico Palácio Chiado (aqui). Os nossos amigos escolheram o Topo Chiado, já nós chegámos perto da hora marcada e fomos directos ao restaurante.

Comprovada a nossa verdadeira vontade de jantar ali, disseram-nos que a mesa ainda demoraria mais meia hora. Foi o tempo de beber uma cerveja no Palácio Chiado – mesmo ali ao lado – e voltar para, agora sim, jantar num dos sítios mais deliciosos de Lisboa.

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O ambiente

Repare que eu não disse deslumbrante, nem fantástico, nem espectacular. Disse apenas delicioso. E disse porque na Taberna da Rua das Flores o que, de facto, interessa é a comida. O espaço é pequeno e tem uma decoração despretensiosa: cadeiras de madeira, mesas com tampo de pedra, balcão tradicional. Tudo é simples, acolhedor e barato. Não há detalhes de decoração modernos a imitar o antigo, não há peças vintage para dar um ar hipster. Não, senhor. O nome do restaurante é Taberna não apenas por uma questão de marketing – é sobretudo uma filosofia de vida.

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A ementa

Aqui não há capas de couro nem folhas de papel couché. Aqui não há letras bonitinhas em itálico nem nacos do lombo em cama de... Aqui não há aveludados nem caramelizados, não há espumas nem crocantes. A comida é apresentada num quadro de ardósia e é tratada pelo nome. Simples, sem rodeios nem adjectivos. Além disso, a ementa muda todos os dias. Hoje pode haver amêijoas, amanhã pode haver ostras. Se a comida não está fresca, não entra. Nunca sabe quantos pratos haverá para escolher e nunca sabe o que poderá comer. Só tem uma certeza: é tudo fresco, saboroso e feito com cuidado. Além disso – detalhe importante – o prato mais caro custava 14 euros. E era porque levava foie gras fresco e cogumelos selvagens.

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O couvert

Para mim, basta-me uma boa broa de Avintes para fazer um enormíssimo couvert (€3,50). Mas na Taberna da Rua das Flores há mais. Além da broa escura, deliciosa e ainda húmida, vem um bom pão saloio e um óptimo azeite. Ao lado trazem-lhe umas deliciosas e tenrinhas azeitonas marinadas com limão para ir petiscando enquanto espera pelos pratos. 

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Os pratos

Estava eu ainda a tentar aspirar sofregamente toda a broa de Avintes que tinha vindo para a mesa quando "Ele" chegou. "Ele" não é propriamente o meu irmão gémeo – é só o melhor prato que eu comi este ano e um dos melhores de sempre. Trata-se de um picadinho de carapau cuidadosamente cortado em suculentos cubos de um peixe fresquíssimo e delicioso (€7,50). Os pedaços de peixe são tenrinhos e ultra-saborosos, graças a uma equilibrada marinada feita com gengibre, maçã verde, aipo, cebola roxa e limão. É incrível como aqui não há um único ingrediente que esteja em excesso ou que sobressaia. Tudo combina de forma harmoniosa, como se o peixe tivesse acabado de sair assim mesmo de dentro de água. 

Mas o melhor está no fim. Além de vir por cima de umas suaves e finas tiras de algas, o carapau ainda leva no topo esses minúsculos seres que dão pelo nome de krill. O krill é uma espécie de camarão anão, com cerca de 1 centímetro de comprimento, que existe nos oceanos como as formigas existem na terra – às toneladas. São o alimento preferido de peixes e baleias, que os comem com a mesma voracidade com que eu devorei o picadinho.

Neste caso, o krill é usado de uma forma maravilhosa: é frito, tornando-se estaladiço, e depois salpicado por cima do picadinho. E é essa mistura entre a suavidade do peixe e a textura estaladiça do krill que ajuda a tornar este prato uma experiência única. Para acabar, ainda vêm uns tomatinhos cherry cortados ao meio e um fantástico molho polvilhado com sementes.

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Enquanto eu ainda tentava perceber que maravilha era aquela que me atravessava o esófago, já chegava o segundo pedido: um tataki de atum dos Açores (€14) braseado mesmo no ponto certo. O peixe é muitíssimo bom e vem envolvido em sementes de sésamo, depois vai a tostar levemente de forma a ficar selado por fora e bem rosado por dentro. Ao lado, leva um molho suave e adocicado feito à base de miso que liga lindamente com o atum.

A seguir, veio aquela que para mim foi a única desilusão da noite: as amêijoas à taberneiro (€10). As amêijoas são grandes e carnudas e estavam cozinhadas na perfeição, mas o molho feito à base de vinho branco, coentros, alho e chouriço torna-se forte demais e anula qualquer réstia de sabor a mar que o marisco possa ter. Aliás, o sabor do chouriço sobrepõe-se a qualquer outro no prato e torna-se ligeiramente enjoativo.

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O festival continuou com uns cogumelos cantarelos selvagens (€14) que estavam maravilhosos. São cozinhados com uma deliciosa mistura de manteiga, vinho branco e ervas. Depois, ainda levam uma gema de ovo que ajuda a transformar o molho num creme tão suave como uma colherada de leite condensado. Os cogumelos vêm para a mesa num tachinho de louça com um fantástico escalope de foie gras por cima, polvilhado com umas pedras de sal. É claro que não resisti a este molho e acabei a ingerir quilos de colesterol molhados nas imprescindíveis fatias grossas de pão saloio.

Antes das sobremesas, ainda conseguimos pedir um obrigatório xerém de camarão (€9,50). São umas viciantes papas de milho tipicamente algarvias que me fazem atravessar todos os anos o Algarve de uma ponta à outra só para as poder saborear. Aqui são cozinhadas com o camarão, o que lhes dá um fortíssimo sabor a mar. Por cima, levam três gambas que estavam cozidas demais e que, por isso, se desfaziam mal se espetava o garfo.

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As sobremesas

E foi neste lamentável estado de dilatação abdominal que chegámos aos doces. E o que é que haveríamos de pedir nós nesta fase. Mais um prato principal, claro. Na verdade, é uma entrada que também dá para sobremesa: são uns fabulosos figos (€9) abertos em estrela e que vão ao forno, durante uns instantes, com uma magnífica fatia de queijo de cabra por cima. O calor derrete ligeiramente o queijo (que não tem nada a ver com aqueles queijos de cabra que compra no supermercado ao quilo) e liberta uma parte do sumo dos figos, que ficam muito mais cremosos. É esta mistura de doce e salgado que torna este prato absolutamente essencial para a felicidade de qualquer ser humano. Isso e a redução de vinho tinto que leva por cima. É claro que aproveitei o primeiro momento de distracção da minha querida Mulher Mistério para molhar mais duas fatias de pão nesta preciosidade.

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A seguir, ainda conseguimos pedir as verdadeiras sobremesas. Primeiro, um bolo de chocolate (€3) fininho e molhado por dentro que vinha polvilhado com açúcar em pó e uma mousse de chocolate à taberneiro (€4) que é feita com aguardente mas que me pareceu forte demais. O bolo de chocolate estava melhor do que a mousse mas, mesmo assim, muito longe dos pratos principais.

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O serviço

A Taberna da Rua das Flores abriu em 2012 e rapidamente se transformou num dos sítios mais procurados de Lisboa. Como é muito pequena e não aceita reservas, é fácil encontrar filas de gente à porta. E esse sucesso pode ser o primeiro passo para transformar um restaurante simples num restaurante pedante. Pode ser, mas não foi.

Desde o momento em que marcámos a mesa até ao instante em que saímos da porta, fomos sempre tratados com um sorriso e uma simplicidade contagiantes. Quando trouxe a ementa, o empregado fez questão de explicar cada prato com uma paixão que me deixou a babar só de o ouvir. E depois teve preocupações cada vez mais raras nos dias que correm. Por exemplo, sendo os pratos todos para dividir, foram trazidos um de cada vez para não nos pressionar a comer depressa e a libertar a mesa.

De resto, o serviço foi sempre rápido, atencioso e claramente apaixonado – tanto pelo restaurante como pela comida. E isso é maravilhoso de ver.

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As crianças 

Não tem menu infantil – aliás, nem sequer tem menu.

 

O bom 

A simplicidade da decoração e do ambiente

O mau

Não aceitarem reservas por telefone e não terem multibanco

O óptimo

A comida, especialmente o picadinho de carapau e os figos com queijo de cabra

 

Uns óptimos petiscos para si onde quer que a taberna esteja,

Ele

 

fotos: catarina botelho; a taberna da rua das flores; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.

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Taberna da Rua das Flores
Rua das Flores, 103, Lisboa
Segunda a sexta, das 12h às 00h; sábados, das 18h às 00h
Fecha ao domingo

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