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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

forno d'oro: ai, jesus, que abriu em lisboa um novo restaurante com pizzas divinais!

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- Forno d'Oro, boa noite.

- Boa noite, queria reservar uma mesa para três pessoas esta noite.

- ...Trêeeees... pessoooooas... eeeeesta... noooooite...

- (...)

- ...Para que horas?

- Para as dez e meia, por favor.

- ...Deeeeeez... e meeeeeeia... trêeeeeees... pessoooooooas... hmmm...

- (...)

- ...Hmmmmm... deeeeeez... e meeeeeeia... trêeeeeees... pessoooooooas...

- (...)

- [Silêncio]

- Estou, sim?

- Sim. Então era para quantas pessoas a reserva?

- Para três?!

- E para que horas?

- Para as dez e meia?!

- Entãaaaaao, deeeeeeez e meeeeeeeeeia... deixe-me só ver aqui num instante...

[Oh, não! Outra vez não!]

- Sim?

- Sim. Qual é o nome?

- Adalberto Francelino. [O nome não terá sido literalmete este, por razões evidentes]

- ...Adaaaaaaalbeeeeeerto... Fraaaaaaanceliiiiiiiiino... trêeeeeeees... pessooooooooas... Deiiiiiixe... sóooooooo... aquiiiiiii... veeeeeer...

[NÃAAAAAAO! TIREM-ME DAQUI!]

- Estou?

- Estou, sim, peço desculpa, é que eu estava aqui a... Sim, senhor, está marcado.

- Muito obrigado.

 

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Cinco minutos depois, tinha ultrapassado o telefonema com mais momentos de silêncio da história da minha vida. Parecia que estava a tentar falar com uma mota antiga que teimava em não pegar. Cada vez que acabava de pronunciar uma palavra ia a baixo. Quando pousei o telefone pensei: Adalberto Francelino, meu rapaz, queres mesmo jantar num restaurante com um forno forrado a ouro, decorado com uns pratos pintados com uns elefantes e que tem ao telefone um senhor que, ao falar, parece uma Famel gripada?

Pensei que a resposta dada por este cérebro de saguim-de-tufo-branco fosse um rotundo não. Mas não. Alguma força interior me arrastou até ao Forno d'Oro, a nova pizzaria de Lisboa, acabadinha de inaugurar e que tem um forno dourado de nove toneladas, forrado a ouro, que poderia estar perfeitamente no meio da sala da família Aveiro. 

No entanto...

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O serviço 

...No entanto, fui recebido à entrada do restaurante por um dos seres humanos mais simpáticos do planeta. Tanka Sapkota é o dono e o chef da Pizzaria d'Oro. Apesar de ser nepalês, esteve em Itália a receber formação dos mais importantes e genuínos pizzaioli do mundo. Mas a principal característica de Tanka não é a facilidade com que roda a massa da pizza em cima do seu dedo indicador – a sua principal característica é o sorriso.

Quando chegámos à Pizzaria d'Oro com 20 minutos de atraso, já quase às onze da noite, eu achei que iríamos ser recebidos por um pelotão de gurkas prontos para nos fuzilarem à frente de toda a gente. Mas não. Fomos recebidos com um enorme sorriso e um convite para beber uma imperial ao balcão (aqui o convite é literal, uma vez que as imperiais não nos foram cobradas).

Segunda boa surpresa da noite: todas as cervejas do restaurante são artesanais e a imperial é uma deliciosa Benediktiner alemã, produzida desde 1609 e que está algures entre uma imperial leve e uma Duvel mais encorpada.

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A esta altura, já o dono pedia desculpa por não ter a mesa pronta – sempre com um sorriso. E haveria de continuar a desculpar-se ao longo de toda a noite por nos ter feito esperar dez minutos.

Foi num desses momentos em que estávamos distraídos a pensar se umas imperiais com 5,4% de álcool em dois estômagos vazios não nos iam deixar a falar como o Toni, que nos apercebemos de um empregado por trás de nós a fazer um discreto sinal ao homem do balcão para nos servir umas óptimas bruschettas com tomate e manjericão (€1,35) e uma agradabilíssima focaccia com umas leves pinceladas de azeite biológico (€1,80). Serviço Atencioso, 1 - Estômago Vazio, 0.

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A ementa 

Feita com a mesma massa da pizza, a focaccia simples é bastante mais alta porque não leva ingredientes em cima. E é assim que se vê que a massa da pizza é boa. A tradicional massa napolitana não é fina e estaladiça como se faz em muitos restaurantes em Portugal. Eu também gosto da massa estaladiça – especialmente em oposição às massas grossas e pesadas que se encontram por aí – mas não é a original. A massa original é alta, mas muitíssimo leve. E porquê? Porque o seu interior deve estar cheio de ar. É por isso que ela fica mais achatada quando são colocados ingredientes por cima (no centro da pizza) e mais alta quando não leva nada (nas bordas). E é também por isso que as pizzas conseguem ser altas e estaladiças como a côdea de um pão acabado de sair de um forno a lenha.

Depois de ter levado o resto da focaccia para a mesa, onde continuámos a mergulhá-la num óptimo azeite que ali estava, passámos para...

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...As entradas 

Como íamos acompanhados do único elemento da nossa equipa de futsal que não arranjou uma desculpa para abandonar os pais ao jantar no fim-de-semana, resolvemos partilhar duas entradas e duas pizzas pelos três. E aqui tivemos a nossa mais forte desilusão da noite. Quando já estávamos a salivar pela burrata com azeite DOP (€9,90), fomos cruelmente informados de que a burrata tinha acabado. Os únicos escombros que ficavam do ataque faminto da noite só davam para compor uma focaccia com burrata e trufa negra (€13,95). É claro que não desperdiçámos a oportunidade – e não nos arrependemos. Além de saber verdadeiramente a trufa, vinha com a tal massa hiperleve, alta e estaladiça nas pontas.

Para substituir a burrata, pedimos um carpaccio do lombo, com finas meias-luas de aipo, lascas de parmesão também finíssimas (é tão melhor lascas do que parmesão ralado!), azeite biológico e rúcula. Muitíssimo bem temperado, só tive de pedir um pouco mais de pimenta moída no momento. 

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As pizzas 

Sobre a massa estamos conversados: o Forno D'Oro entra directamente para o top 5 das pizzarias portuguesas (quem serão as outras quatro?...). Falta apenas elucubrar sobre os ingredientes que vêm em cima. Aqui as pizzas são divididas em dois: aquelas que são feitas com ingredientes portugueses e as que levam produtos italianos. À falta de burrata (não sei se já tinha falado disto?...) tivemos de arranjar alternativas. E a solução foi um acordo de paz Portugal-Itália, para ninguém ficar melindrado. 

Primeiro dividimos uma pizza italiana: a Ricotta Salami Funghi (€11,95) é feita com requeijão de ovelha fresco, salame de Nápoles, cogumelos salteados e umas folhas de manjericão. O resultado é uma pizza saborosa e leve, ideal para abrir o caminho para a nossa escolha seguinte: a Transumância (€12,95) é uma das pizzas lusitanas do restaurante, feita com túbaras, queijo de ovelha, presunto de porco preto e esses dois ingredientes tão tipicamente portugueses que são o tomate San Marzano e a mozzarella fiori di latte.

Ultrapassado o preciosismo geográfico, há que constatar que a pizza estava deliciosa. O presunto vinha cortado finíssimo e ainda com aquela leve textura da gordura que só têm os melhores presuntos. As túbaras estavam magníficas. E o que mais sobressaía era o queijo de ovelha amanteigado tão intenso quanto divinal.

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A sobremesa 

Nesta fase do jantar, o entusiasmo com a comida era tão grande que já se tornava inevitável uma sobremesa. Mas...

...Porquê arriscar quando estava tudo a correr tão bem? Não é que as sobremesas sejam más, mas estão claramente abaixo do resto. O cheesecake (€4,50) veio com o corpo liso e perfeitinho demais como se fosse uma boneca de porcelana muito pouco apetecível. E o tartufo de chocolate (€4,50) não é mais do que uma normal bola de gelado com dois sabores, coberta por cacau em pó. 

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As cervejas artesanais 

Começámos pela fantástica Benediktiner alemã (€2,50), que está no ponto ideal: ligeiramente frutada e não muito densa. Depois, eu decidi partir à descoberta de novos sabores, qual Robinson Crusoe da restauração. Experimentei duas cervejas italianas: uma L'Olmaia 9 (€7) e uma L'Olmaia 5 (€7). Ao contrário do que deveria ter feito, comecei pela 9, uma cerveja um pouco mais escura, encorpada, com 6,5% de álcool e um ligeiro sabor amargo que francamente não foi o ideal para acompanhar um carpaccio e uma focaccia. Depois é que passei para a 5, uma "ale" mais clara, mais leve, com menos álcool e sem um amargo tão intenso. De qualquer forma, a minha preferida foi a Benediktiner, que Ela sabiamente continuou a beber ao longo de toda a refeição.

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O ambiente 

Tirando o forno de ouro e os pratos pintados com elefantes, sóis e outros motivos que nos levam mais para a terra das chamuças do que das pizzas, está tudo perfeito: as paredes são brancas, as cadeiras são confortáveis, a organização da sala não é barulhenta nem silenciosa demais e – detalhe mais importante de todos, que para mim faz toda a diferença nestes dias de frio em que alguns restaurantes parecem o Hotel do Gelo – na casa-de-banho, o lavatório tem água quente. É que quanto mais me aproximo do fim da segunda idade, mais valor dou a entrar num sítio quente num dia de frio.

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As crianças 

Não tem menu infantil.

 

O bom 

A simpatia e a competência do serviço

O mau 

O forno dourado e a decoração oriental num restaurante italiano

O óptimo 

As pizzas, especialmente a massa

 

Uma boa pizza para si onde quer que esteja,

Ele

 

fotos: forno d'oro

 

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