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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

largo do paço, um incrível restaurante com uma estrela michelin num dos sítios mais bonitos de portugal

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Há quem vá jantar ao Largo do Paço por ter sido eleito o segundo melhor restaurante da Europa, há quem lá vá por ter uma estrela Michelin, eu vou apenas para comer. E especialmente para comer à mão. Não estou a falar de comer à mão um delicadíssimo bombom pegado com a ponta de dois dedos num elegante salão de chá da Place Vendôme, em Paris. Estou a falar de comer à mão uma cabeça de gamba como se faz no restaurante do Barbas, na Costa de Caparica. E este é dos poucos restaurantes Michelin onde isso acontece.

 

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O ambiente

A decoração é pesada e formal (o que pode ter sido um problema perante a minha camisa por fora das calças) e o ambiente é calmo e silencioso (o que pode ter sido um problema ainda maior perante a capacidade de Ela proferir sete palavras por segundo), mas, ao mesmo tempo, e apesar das pesadas cortinas nas janelas e dos enormes candeeiros no tecto, consegue ser um restaurante descontraído (se calhar, os capuzes pendurados nas costas das cadeiras ajudam). E isso acontece essencialmente por causa do serviço. 

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Mas já lá vamos. Antes convém falar da vista. Amarante é uma das cidades mais bonitas de Portugal (tirando evidentemente toda a floresta de prédios multicolores que cresceram à volta do centro histórico e que orgulhosamente transformaram a vila em cidade). E o palacete onde fica o Largo do Paço (o hotel de charme Casa da Calçada) é um edifício lindo, mesmo em cima do rio, com vista para a ponte de pedra do século XII e o magnífico mosteiro do século XVI. Se vier aqui almoçar ou jantar, vale a pena chegar um pouco mais cedo e sentar-se na esplanada com um Porto tónico ou um gin à frente.

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O serviço

Mal entrámos na sala do restaurante, levaram-nos até à mesa que estava marcada. Mas, no preciso momento em que Ela se preparava para se sentar, apareceu outro empregado a perguntar se não preferíamos antes ficar à janela. É que havia uma mesa que tinha acabado de ficar vazia e eles podiam arranjá-la em poucos segundos. Estava dado o primeiro recado: o restaurante pode ser formal, mas o empregados têm capacidade de improvisar. E têm também capacidade de sorrir, de conversar e de não se limitarem a repetir uma cassete gravada com a extensa lista de ingredientes de cada prato – e isso também é raro em restaurantes com uma estrela Michelin.

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A ementa

Não é fácil descrever uma refeição em que comemos mais de dez pratos cada um, entre aperitivos, amuse-bouches, entradas, pratos principais, sobremesas e bolinhos a acompanhar o café. Mas eu vou fazer um esforço. Por isso, prepare-se: ou acaba de ler este texto cheio de fome ou acaba simplesmente cheio.

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O couvert

A ultramaratona começa com uma selecção de pães relativamente desanimadora: uma boa focaccia de orégãos, uma simpática chapata com passas, um normalíssimo pão de sementes escuro, um ainda mais normalíssimo pão de sementes branco e uma muitíssimo mais normalíssima chapata simples. Mas, enquanto eu olhava em volta a ver se não me tinha enganado no sítio, já o empregado estava a colocar na mesa uma fenomenal manteiga de caviar e uma fantástica manteiga de algas só para me calar ainda antes de eu mexer qualquer músculo facial. Para as senhoras mais preocupadas com a linha, como a minha prezada e amada Mulher Mistério, vieram também dois pratinhos com azeite: um alentejano do Esporão e um transmontano da Quinta do Romeu. Eu confesso que só provei umas gostas do azeite: primeiro, porque a manteiga de caviar estava óptima; depois porque chegaram logo a seguir os aperitivos.

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Os aperitivos

Se calhar é mais rigoroso falar de os PRIMEIROS aperitivos, porque isto vai demorar. O mais impressionante são umas falsas trufas de alheira espetadas em dois arames que saem de um tronco. São recheadas com alheira e envolvidas em tinta de choco, o que lhes dá uma cor preta. No entanto, a surpresa do aspecto não equivale a uma surpresa de sabor: no fundo, o que tem ali são uns bons e simples croquetes de alheira pintados de preto, sem sombra de choco.

Ao lado, vem outro tronco de árvore, este em pé (começa a haver aqui uma certa obsessão com florestas), com duas falsas beterrabas: o que torna este aperitivo delicioso é o interior feito de foie gras e a capa avermelhada feita de geleia de vinho do Porto, com uma fabulosa textura suave e escorregadia. A esfera leva ainda uma pequena folha de manjericão espetada no topo que tem um sabor intenso demais. O ideal é retirar a folha e saborear o resto sem mais misturas.

Para completar esta primeira fase de aperitivos trazem-lhe uma tábua com uma pequeníssima barriga de porco servida sobre uma tortilla e com um chutney de manga por cima (estava óptima, com todos os sabores ali concentrados); um tártaro de vitela envolvido numa pele de lula, acompanhado com caviar e beterraba e servido em cima de uma finíssima e estaladiça folha de arroz; e finalmente o melhor desta fase: uma air baguette feita com massa filo, recheada com Queijo da Ilha em versão creme e enrolada numa finíssima fatia de presunto de porco bísaro. O resultado é soberbo: tanto a surpresa do Queijo da Ilha em creme por dentro, como o facto de a massa exterior vir coberta de gordura do presunto. Eu sei que é calórico, mas é em quantidades tãaaaaao pequeninas que não há-de fazer assim tão mal. Eu comia dez air baguettes sem pestanejar duas vezes – mas infelizmente só veio uma.

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Os segundos aperitivos

Espero que, com este pequeno parágrafo, tenha tido tempo de respirar um pouco. Porque nós não tivemos. Quando ainda estávamos a limpar a boca com o guardanapo, já se vislumbrava no horizonte a segunda rodada de aperitivos, composta por um magnífico prato japonês, coberto de pedras e inundado de fumo provocado por gelo seco colocado dentro de um recipiente ao lado.

Dentro do prato, vinha uma colher com um camarão de Espinho cru (ainda não é o da cabeça para comer à mão) com molho de ostras, Moscatel e yuzo (um citrino japonês parecido com limão), um royal de lavagante (que é uma espécie de mousse) e uma espuma de coentros que já vinha transformada em líquido (supostamente, o cifão estava no fim e o que saiu foi um creme chocho semelhante àquele que sai das latas de espuma para a barba quando estão a acabar). O sabor estava óptimo, mas acredito que o aperitivo fosse mais interessante se estivesse envolvido na espuma em vez do líquido viscoso.

Ao lado da colher, ainda dentro do prato, vinha uma concha com uma tempura de algas com um fio de beurre blanc de açafrão por cima. Era estaladiço, mas nada do outro mundo.

O melhor foi mesmo o último aperitivo da noite (ou, se quiser entrar em choque anafilático, o oitavo aperitivo da noite), que, como não podia deixar de ser, veio servido onde? Numa árvore, pois então (três árvores em oito aperitivos não é uma média nada desprezível). O que veio para a mesa foi uma bonsai de tangerina onde estavam presos dois deliciosos cones de massa filo recheados com ceviches de salmão, guacamole e ovas de truta. Se não fosse o facto de Ela ter perguntado ao empregado se podia comer as tangerinas (Como?!), eu teria tido oportunidade de me centrar apenas na fantástica combinação de sabores e texturas frescas.

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As entradas

E foi assim, com oito aperitivos no estômago, que chegámos ao início da refeição: Ela a queixar-se de falta de fome, eu a queixar-me de falta de comida. Este é o momento em que as árvores desaparecem de cima da mesa e as coisas se tornam mais sérias. A minha prezada Ela pediu uma Zamburinha (€25), que é um marisco parecido com a vieira, mas mais pequeno e com um sabor mais suave. Vieram servidas três, cobertas com caviar e acompanhadas por um fantástico tagliatelle de aipo com um molho feito de espuma de vinho verde espumante (que desta vez vinha mesmo espuma – já deviam ter trocado o cifão). A mistura de texturas é única e imperdível. Ao lado, vinha uma lata com esturjão fumado, caviar e um cremoso de aipo também magnífico. 

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Eu pedi um taco de atum (€22) marcado por fora e cru por dentro que vinha com uma mousse de gengibre, uma gelatina de molho teriyaki (agridoce), taiko (um nabo japonês) e uns cogumelos frescos que pareciam flores. A acompanhar, noutro prato, trouxeram-me uma vitela kobe enrolada, uma finíssima fatia de ananás dos Açores e uma mousse de wasabi incrível. Escusado será dizer que o atum estava fresquíssimo e a combinação com os outros ingredientes resultava na perfeição.

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Os pratos principais

Ela pediu um naco de veado (€29) do outro mundo, hiper-saboroso e cozinhado mesmo no ponto certo. Veio acompanhado com batata doce (um claro fétiche na vida gastronómica Dela), pêra doce, mirtilos e couves de Bruxelas servidas em folhas soltas. Estava muito, muito, muito bom – e eu posso repetir a palavra "muito" três vezes porque, no meio da confusão, consegui provar três vezes.

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Eu escolhi o salmonete (€30), que vem servido num delicioso filete, sem espinhas mas com a pele para não perder nada do sabor. A acompanhar vem uma gamba rosa gigante e uns gnocchis de açafrão com caviar por cima. O salmonete é, a léguas de distância, o meu peixe preferido. Mas o melhor do peixe são os fígados. E é por isso que o molho que vem com o peixe é uma emulsão de ouriço do mar com os fígados do salmonete. O resultado é simplesmente divinal. Apesar de só vir um filete para a mesa, estão lá todos os sabores deste peixe estratosférico. E ainda por cima, a textura da emulsão é levíssima. A única coisa que não me convence (mas dificilmente me convence) são os gnocchis que acabam por ser sempre pesados demais.

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Então e a gamba não é para comer à mão? A gamba não, mas a cabeça sim. Vem num pratinho à parte, para que possa comê-la decentemente sem talheres. Perante o olhar incrédulo Dela, eu lambuzei-me deliciadamente com esta maravilha da costa portuguesa.

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As sobremesas

E finalmente estamos quase a acabar. Mas quando digo quase, é porque ainda falta alguma coisa. Primeiro as sobremesas. Ela pediu uma panacotta de Queijo da Serra (€14) com marmelada, banana e romã. Leva ainda uma espuma de Queijo de Azeitão e cogumelos boletos confitados. Por cima tem ainda um fininho pó que parece canela, mas são também boletos raspados. A acompanhar vem uma taça com gelado de chá verde e chocolate mergulhado no próprio chá. Ao lado, vem (what else?) um tronco de árvore cortado com dois financiers (uma espécie de madalena) de chá verde. 

Eu escolhi um fabuloso pudim Abade de Priscos (€14) que vem dentro de uma tangerina feita de chocolate branco. Mas, como tudo neste restaurante, há mais: vem ainda um macaron de limão, uma mousse de baunilha, laranja fresca, lima fresca, gelado de tangerina e um sumo de tangerina. É uma combinação perfeita: as frutas cortam o excesso de doce do pudim e do macaron. Há ainda no meio um crumble de bolacha que lhe dá um toque crocante.

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Com os cafés

Um copo de água? Um digestivo? Nada disso. Com os cafés, trazem-lhe uma caixa de latão com uma cama de chocolate ralado e uma selecção de pequenos doces para – agora, sim – acabar em grande a refeição: uns fabulosos charutos de chocolate recheados com caramelo, umas gelatinas de framboesa em esfera, uns financiers de groselha (melhores do que os de chá verde) e uns fantásticos brigadeiros de chocolate branco.

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Os vinhos

A Casa da Calçada produz os seus próprios vinhos. E os vinhos verdes são deliciosos: parecem brancos secos, sem gás nenhum. Comece com o espumante (este, claro, tem gás) e prove o branco reserva – é imperdível. Para terminar, não há nada como o Moscatel Dalva Colheita 2003 feito pelo chef Vítor Matos, que acabou de ser substituído no restaurante pelo seu número dois, André Silva.

No final, foram 15 pratos para cada um, se contarmos com aperitivos e doces no fim. Perante isso e os vários vinhos que provámos, rebolámos até à rua e passámos as duas horas seguintes a tentar digerir, pelo menos, um décimo do que comemos. Acho que não conseguimos: aquela cabeça de gamba comida à mão é que foi demais.

 

O bom

A vista e o centro de Amarante

O mau

A espuma que veio líquida porque o cifão estava no fim

O óptimo

A comida e os vinhos da Casa da Calçada

 

Leia também:

 

Um óptimo jantar para si onde quer que o boneco da Michelin esteja,

Ele

 

fotos: mário cerdeira; largo do paço e casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.

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