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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

loco, um restaurante michelin onde lhe trazem uma frigideira com molho de bife para molhar o pão

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Quando o telefone tocou, percebi definitivamente o perigo desta vida dupla que levamos:

– Estou? Temos um problema. Já chegámos ao restaurante e afinal, não temos mesa marcada!

A voz de pânico do casal de amigos que ia jantar connosco ao Loco, o novíssimo restaurante do chef Alexandre Silva, acabadinho de ser premiado com uma estrela Michelin, deixou-me à beira da apoplexia.

– Como não?! Ainda hoje me ligaram do restaurante a confirmar a reserva.

– Nada! Já dei o teu nome, já dei o nome da... (lamento, mas não posso reproduzir o nome) e nada.

Foi neste momento que uma luz desceu do céu para me iluminar.

– Ah… pois… A reserva deve estar noutro nome.

De facto, a ideia inicial era um jantar a dois. E, por isso, resolvi fazer a reserva num nome falso para não levantar suspeitas. Até aqui, brilhante. O problema foi ter deixado os nossos amigos chegarem antes de nós e perceberem que eu marco mesas em nome de Ermengardo Afonso.

 

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O ambiente

Entrar no Loco é uma experiência, no mínimo, original. O restaurante não tem ementa e quase não tem mesas. No total, são meia dúzia de mesas que não sentam muito mais de 20 pessoas. E isso é o grande problema do Loco. Não porque eu goste de restaurantes com o nível sonoro da casa da Cristina Ferreira em dia de festa de família, mas porque um bom ambiente não é só um espaço com uma decoração deslumbrante – e no Loco há detalhes maravilhosos. Um restaurante com bom ambiente é um sítio onde os clientes queiram estar, onde se sintam bem e à vontade. Seja uma tasca ou um três estrelas Michelin.

E nisso o Loco falha. Em primeiro lugar, pela escassez de mesas e pela preocupação em marcá-las a horas diferentes para não sobrecarregar o serviço. O que acontece é que jantamos numa sala sobredimensionada para o número de lugares que, ao longo de grande parte da refeição, nem sequer estão totalmente ocupados.

Depois, pelo excesso de empregados. Ter sempre um empregado disponível para chamarmos é maravilhoso, ter vários empregados parados a olhar para nós enquanto jantamos ou conversamos é intimidatório.

Falta um pouco de vida para transformar o Loco mais num restaurante pensado para quem lá vai jantar do que para quem lá trabalha.

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De resto, a decoração é maravilhosa. À entrada, uma enorme oliveira pendurada no tecto impressiona. Na parede, três enormes janelas em abóboda dão profundidade à sala. E a cozinha está totalmente aberta para a zona das mesas – só separada por um balcão. A ideia de aproximar os clientes dos cozinheiros é engraçada, mas também aqui falta ambiente. O que vimos ao longo do nosso jantar foram vários cozinheiros circunspectos e intimidados pelos olhares dos clientes, a prepararem os pratos em silêncio. Parecia claramente que os cozinheiros estavam na sala de jantar e não que os clientes estavam na cozinha.

Só mais um detalhe delicioso: os pés das mesas pretas e modernas onde nos sentámos são feitos de troncos de árvores reaproveitados.

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A ementa

Eu não tinha dito que não havia ementa? Não há mesmo. No Loco, tem apenas duas opções: um menu de degustação com 14 momentos por €70 por pessoa (pode traduzir estes "momentos" por snacks, pratos, sobremesas e umas surpresas); ou outro com 18 momentos ou mais, por €85 por pessoa. Os menús variam regularmente e são preparados com base nos produtos frescos da semana. Nós pedimos o menu mais pequeno, mas como já fomos ao Loco há algum tempo, é provável que hoje não encontre os mesmos pratos que nós encontrámos.

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Os snacks

Mal se senta, trazem-lhe a primeira surpresa: umas fatias crocantes e muito fininhas de carasau (um pão italiano típico da Sardenha) que são penduradas em anzóis, presos a linhas de pesca agarradas ao tecto. Já foram escritos vários artigos sobre se esta é uma ideia original ou se já tinha sido apresentada antes em outros restaurantes espanhóis.

Sinceramente, acho que há coisas mais relevantes para discutir do que a invenção dos anzóis presos no tecto. A mim, interessa-me mais se a ideia é boa e se o pão é saboroso. E aqui a questão divide-se.

O pão é óptimo. Crocante, leve e bem temperado, é uma óptima maneira de começar a refeição. Quanto aos anzóis, são uma ideia divertida, mas, mais uma vez, tensa e stressante. Mal pendurou as fatias de carasau, a empregada pediu encarecidamente para não arrancarmos o pão do anzol, porque podíamos romper o fio de pesca. É, por isso, necessário levantar-se da cadeira, esticar os braços e tirar cuidadosamente o pão que acabou de ser pendurado. Eu achei todo este esforço indiferente, a minha querida Mulher Mistério achou-o uma forma desnecessária de a obrigar a fazer exercício físico, o que para Ela é uma verdadeira provocação.

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O segundo snack que veio para a mesa foi uma reinvenção do pastel de bacalhau, o que, depois da polémica à volta do pastel de bacalhau com Queijo da Serra, me deixou gelado. Aqui não há Queijos da Serra. Há uma base crocante e fininha feita de bacalhau, uma gema de ovo muito saborosa e cozida a baixa temperatura e um delicado puré de salsa. A combinação é deliciosa.

Ainda estávamos a deglutir a última migalha de crocante de bacalhau e já estavam a colocar à nossa frente um pão com chouriço cozido ao vapor. Macio e fofinho, leva um recheio de chouriço por dentro e uma combinação de creme de chouriço e raspas de chouriço por cima. Veio ainda uma deliciosa barriga de atum fumada com eucalipto e servida com pickle de tangerina e chagas, que são umas pétalas de flores comestíveis que tapavam o peixe. E uns mexilhões mais normais, com tomate, chalota, maçã e sumo de aipo. 

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Nesta fase, começámos a ver uma movimentação de chefs, empregados e cozinheiros a olhar para nós. Foi o terceiro momento de tensão da noite – e o jantar ainda estava no início. Aproximaram-se da mesa quatro pessoas com um ar circunspecto e deram-nos à boca uma colher com barriga de atum crua, puré de limão, Peta Zetas e quinoa tufada, leve e estaladiça. Claramente, o sabor é melhor do que o espectáculo da colher dada à boca por quatro pessoas sérias e desconhecidas. É possível que a graça resultasse num ambiente mais alegre e descontraído mas, por enquanto, o Loco ainda não tem esse ambiente. 

Os snacks terminaram com uma cenoura assada com flor de sabugueiro que me pareceu adocicada demais.

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O pão

Sete snacks depois, tivemos direito à primeira pausa. E para quê? Para então comer o couvert. Ao contrário de muitos restaurantes Michelin, o Loco consegue ter no couvert um dos momentos mais divertidos e originais da refeição. Em vez de procurar espumas de azoto e bonsais para impressionar, vai buscar um delicioso molho de bife, servido numa frigideira onde pode molhar o pão. E isso, sim, consegue ser típico, divertido, surpreendente e muito, muito bom. 

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Para a mesa trazem-lhe ainda pão branco rústico, pão com sementes e quatro manteigas: uma divinal manteiga de Azeitão, outra boa de alho e salsa, mais uma óptima de algas e uma última de tinta de choco fumada que também não estava nada mal.

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Os pratos principais

Quando falamos de pratos principais, não falamos de doses de tripas à moda do Porto da Cozinha do Manel. Falamos de doses moderadas para poder ir experimentando várias coisas. Primeiro chegaram umas tiras de lula muito fininhas com um caldo de pés de porco deitado por cima, à nossa frente. A combinação pode parecer estranha, mas resulta maravilhosamente.

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Depois chegou uma ostra ao vapor com um molho tailandês feito com malagueta e alho. A ostra vem crua e temperada para a mesa dentro de um cesto chinês. A água a ferver é colocada à sua frente. Só tem de esperar um minuto que a ostra cozinhe e depois retirá-la para o prato para esperar que arrefeça ligeiramente. O programa é divertido e o resultado combina um fortíssimo sabor a mar com um picante que era forte demais para o meu gosto.

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O jantar continuou com um crocante de caril verde com algas que vinha a acompanhar um lombinho de enxaréu cozido e temperado com uma pasta de citrinos e malagueta e enrolado numa folha de bananeira. Tem de abrir a folha de bananeira e comer o peixe muitíssimo macio e saboroso enquanto trinca as bolachas crocantes de caril. A combinação é fabulosa e melhora mais ainda quando lhe trazem logo a seguir uma taça com leite de coco misturado com o caldo do peixe.

Os pratos principais continuaram com aquele que foi para mim a maior surpresa de todas: uma mistura de grão com tendões de mão de vaca com chouriço. Pode parecer assustador, mas é simplesmente delicioso e macio. Veio ainda um óptimo ravioli de rabo de boi com legumes salteados e espuma de alho tostado.

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As sobremesas

Para iniciar a parte das sobremesas, trouxeram um snack de transição: um tubo de alga nori recheado com um creme de sésamo e soja e com umas gotas de gel de limão e pickle por cima. A seguir chegou uma mistura de pera, camomila e miso. A pera vem em gelado e puré, a camomila vem num consomé e numas bolachinhas crocantes. O miso vem nuns cilindros. Sinceramente, achei tudo estranho de mais e doce de menos para uma sobremesa.

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Antes do café, trouxeram uma caixa de costura antiga com uma série de pequenos bolinhos de onde se destacam umas óptimas queijadinhas feitas com base numa receita antiga da avó do chef. O café é de balão e feito à sua frente, o que dá um cheiro maravilhoso à sua volta.

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O serviço

É muitíssimo simpático e atencioso. Estão sempre disponíveis e bem preparados para responder a qualquer dúvida que tenha. Depois têm atenções especiais, quer no momento de marcar, quer ao longo da refeição. Por exemplo, quando marquei mesa disseram-me:

– O senhor já tinha marcado antes e acabou por desistir. Ficamos muito contentes por ter conseguido vir finalmente.

O único problema é mesmo o excesso de empregados para o reduzido número de clientes e o excesso de preocupações que acabam por deixar as pessoas pouco à vontade. Pode ser que a estrela Michelin ganha esta semana ajude a descontrair um pouco o serviço.

 

O bom

A decoração

O mau

A falta de ambiente no restaurante

O óptimo

A originalidade da comida (com excepção das sobremesas), especialmente o molho de bife do couvert, as tiras de lula ou o grão com mão de vaca

 

Um óptimo jantar para si onde quer que a loucura esteja,

Ele

 

fotos: loco; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial. 

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Loco
Rua dos Navegantes, 53-B, Lisboa
De terça a sábado, das 19h às 23h
T: 213 951 861

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