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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

o delicioso bacalhau do josé avillez e todas as outras maravilhas do café lisboa

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Depois da minha pequena crise de juventude súbita, os meus queridos filhos fizeram o favor de me relembrar daquilo que eu já temia há muito tempo.
Estou velho.
VELHO.
V-E-L-H-O.
Aliás, aproximo-me perigosamente daquele ponto em que um criaturo já não sabe exactamente quanto tempo é que vai viver. Com esta idade, já nem arrisco comprar bananas verdes. Por isso, decidi: não posso perder mais tempo. Há que fazer as três coisas que qualquer homem tem de fazer antes de morrer: plantar uma árvore, escrever um livro e... ir a todos os restaurantes do José Avillez. (Parece-me que, ao quarto filho, já estou dispensado de ter mais um, não?)
E é para cumprir essa epopeica missão que estou aqui hoje. Depois de, no ano passado, termos ido à Pizzaria Lisboa, agora fomos ao Café Lisboa. A seguir, Minibar e Belcanto aí vamos nós!

 

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O ambiente

O Café Lisboa tem uma grande vantagem nos dias que correm: fecha à meia-noite, o que nos permite jantar depois de deixar as crianças mais novas na cama e contar-lhes quatro contos dos irmãos Grimm até embalarem de vez. Depois tem uma enorme vantagem: não fecha durante a tarde, o que nos permite almoçar depois de levarmos as crianças ao Skate Park e vermos quatro horas seguidas de tentativas frustradas de saltos acrobáticos. 

Só com estas duas características, eu já estaria feliz. Mas há mais vantagens, especialmente para pessoas na minha já provecta idade. O Café Lisboa fica dentro do Teatro Nacional de São Carlos e, por isso, aproveitou a maravilhosa decoração interior do início do século XIX. Ali há portas douradas, candeeiros pendurados no tecto (desde que fomos invadidos pela epidemia dos focos, começa a ser uma raridade) ou confortáveis cadeirões de veludo bordeaux para nos refastelarmos à mesa (outra raridade nestes dias de cadeiras desconfortáveis para rodar os clientes com mais rapidez). Há também um caranguejo gigante de Joana Vasconcelos na parede e uma esplanada impagável no largo de São Carlos.

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Mas ninguém vem a um restaurante de um chef com duas estrelas Michelin para apreciar a decoração, pois não? Claro que não. O mais importante é...

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...O serviço

(Se estavam convencidos de que eu ia começar este texto pela ementa, para depois me poderem esnobar à vontade e não lerem o resto, estão profundamente equivocados...)

Desde o primeiro telefonema aos pedidos dos pratos, o serviço foi sempre impecável. Quando ligámos no próprio dia a fazer uma reserva para jantar, explicaram-nos que já só tinham mesa no segundo turno. Às 22h? Não. Às 22h30? Também não. O segundo turno para mesas de quatro pessoas, em dias de casa cheia, começa às 23h. Mas aquilo que, à partida, poderia ser um problema é afinal uma atenção: na verdade o segundo turno começa às 22h30, mas os empregados dizem 23h para não deixarem os clientes à espera caso haja atrasos. Chegámos às 22h30 e já tínhamos a mesa pronta.

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Resultado: correu tudo lindamente até às 23h30, quando comecei a ver uma agitada movimentação no bar para arrumar as coisas e fechar a casa. Às 23h50, quando estávamos a comer a sobremesa, entrou de rompante um caixote do lixo gigante pela sala dentro: eram os empregados a deitar fora os restos. Não fosse esta inovadora experiência social de poder acompanhar os bastidores mais recônditos de um restaurante a funcionar, e teria achado que eventualmente poderia ter havido aqui alguma descortesia com estes quatro pobres clientes. Mas pode ter sido só intenção de levar um pouco mais longe a experiência no restaurante.

De resto, o serviço foi sempre simpático e atencioso. 

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A ementa

Finalmente! Achava que já não falava de comida, não era? Pois, achava mal. Este é um restaurante onde há óptima comida – e onde há também azeitonas explosivas, um outro nível de comida. Mas começando pelo princípio.

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A refeição começa com um couvert (€2,75 por pessoa). Não começa com pão e manteiga, como acontece em muitos sítios socialmente recomendáveis. Não. Começa com um couvert a sério. Um couvert digno. Um couvert verdadeiramente invejável. O único ponto que pode ser melhorado é o pão de mafra. Aqui é servido de duas formas: da forma normal (e que não é brilhante) e em finíssimas tostas feitas no local (e que são deliciosas). Depois, vem também para a mesa uma maravilhosa broa de milho cozida na perfeição, com a côdea estaladiça e o miolo humedecido. A acompanhar trazem-lhe aquela que é uma das melhores variações de manteiga que já comi: uma manteiga de farinheira que consegue ligar os sabores dos dois ingredientes num equilíbrio perfeito, sem se tornar minimamente enjoativa.

E se pensa que isto já acabou, pode sentar-se e descontrair porque ainda há mais: um creme de cenoura aveludado, com um fantástico travo a sopa fria que resulta surpreendentemente no couvert, e umas azeitonas marinadas. É agora que acaba, não é? Não senhor: antes de acabar, ainda precisa de provar o fantástico queijo de cabra temperado com raspas de laranja e orégãos – uma deliciosa mistura entre o salgado do queijo e o doce da laranja.

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As entradas

Agora, sim, chegámos aos pratos a sério num ponto em que já precisávamos de andar dois quilómetros e meio para fazer a digestão – é o problema de ter um casal de amigos quase tão esfaimado quanto estas duas almas misteriosas. Mas se julga que é um simples e delicioso couvert que nos faz desacelerar o ritmo das entradas, está profundamente equivocado.

O nugget de bacalhau com maionese de alho e cebolinho (€2 a unidade) é qualquer coisa digna de me levantar da cadeira para escrever este parágrafo de pé, em jeito de homenagem. No meu eternamente desconfiado estado de espírito, típico de um contribuinte português, ainda pensei que nugget de bacalhau pudesse ser a maneira chique de apresentar um banalíssimo pastel de bacalhau. Não senhor. O nugget é uma divinal, fresca e suculenta lasca de bacalhau frita inteira. E acompanhada por uma maionese fantástica (aliás, todas as maioneses que provámos estavam fantásticas).

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A seguir, chegou um tenríssimo tártaro de polvo com maionese de alho e gengibre (€8) cuidadosamente preparado com uns pequenos cubos de tomate sem pele e uns deliciosos e finíssimos rebentos de coentros. Como Ela é uma delicadíssima apreciadora de favas (e outras especialidades capazes de alimentar um regimento de infantaria), tivemos de experimentar as favinhas de coentrada (€4). Mais uma vez, uma decisão acertadíssima da ala feminina da família: além de muito pequeninas e tenrinhas, vêm acompanhadas com um óptimo puré feito com as próprias favas.

Para acabar esta primeira ronda, pedimos ainda uns croquetes de novilho (€1,50 a unidade) acompanhados com três tipos diferentes de mostarda: dijon, velha e Savora. Apesar de ter sido frito no momento e de ter vindo estaladiço por fora, tinha um recheio um pouco intenso demais para o meu gosto.

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Os pratos principais

José Avillez sem bacalhau à Brás para mim é como azeitonas sem explosão. Desde que descobri as azeitonas explosivas do José Avillez, a minha vida mudou radicalmente. Estávamos nos idos de 2 mil e qualquer coisa, quando, numa tarde de sol as minhas mandíbulas e as suas azeitonas se cruzaram pela primeira vez. À primeira trinca, as azeitonas rebentaram e a boca foi inundada por um maravilhoso líquido com o sabor do fruto concentrado. Desde aí que não há, para mim outro bacalhau igual. E já nem falo do rácio de duas gemas por cada clara que torna este bacalhau num dos mais líquidos e agradáveis bacalhaus à Brás que já experimentei (provavelmente, só equiparável ao do Afonso, em Mora...).

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Como, desde que começámos a fazer este blog, os nossos jantares se tornaram invariavelmente em jantares de partilha, a seguir provei um delicioso bife de atum com batata migada e manjericão (€18). O atum estava irrepreensivelmente cozinhado – braseado por fora e cru por dentro – e a batata migada era uma mistura deliciosa de migas (muito leves) e manjericão (ainda mais delicioso).

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Para terminar, tínhamos ainda de provar o pastel Lisboa com arroz de grelos (€14). À partida, seria de desconfiar de um prato que, desde a abertura do restaurante há um ano e meio, viu o preço inflacionado em 40%. Mas há que valorizar a segunda estrela Michelin do chef e todo o trabalho que está por trás deste delicioso e ultraleve pastel. O recheio é feito com uma carne estufada e picada à mão com uma faca – qualquer semelhança com os cremes enjoativos que pululam por essas pastelarias fora é mera coincidência. E a massa é tendida e frita no momento, o que a torna leve e estaladiça. O que vem para a mesa são dois pastéis gigantes, mas cheios de ar com deve ser – e muitíssimo saborosos.

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As sobremesas

Como já vem sendo costume desde que nos conhecemos um ao outro, acabámos a refeição tão empaturrados que não fomos capazes de comer uma sobremesa – pelo menos, uma sobremesa inteira. Por isso, decididimos dividir duas mousses pelos quatro. Primeiro, uma mousse de chocolate (€4,50) leve e fantástica. E depois a avelã ao cubo (€5), uma combinação irresistível de gelado de avelã, mousse de avelã e avelã ralada. A mistura, em camadas, começou por ser servida no Cantinho do Avillez e foi agora importada pela nova carta do Café Lisboa que estreou em Fevereiro.

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As crianças

Ou convence os seus filhos a comer uma sopa e uns petiscos ou não tem outra saída. Aqui não há qualquer menu infantil e, tirando a esplanada, o espaço não tem muito a ver com crianças. 

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O bom

A esplanada com vista para o Largo do Carmo

O mau

A pressa dos empregados em fecharem o restaurante ainda com os clientes lá dentro

O óptimo

A comida: especialmente o bacalhau com azeitonas explosivas, o nugget de bacalhau e a manteiga de farinheira.

 

Um bom jantar para si onde quer que o José Avillez esteja,

Ele

 

fotos: café lisboa

 

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