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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

o restaurante mais escondido do algarve (e onde come o melhor tártaro de atum com gelado de wasabi e muito mais!)

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O primeiro prato que lhe servem no restaurante Vistas, no Algarve, é intragável. Mesmo. Literalmente. Ao ponto de não se conseguir tragar de maneira nenhuma.

Na verdade, nem é suposto. Quando se senta à mesa daquele que é um dos melhores e mais discretos restaurantes do Algarve, no Monte Rei Golf & Country Club, na Serra do Caldeirão, ao pé de Tavira, a primeira coisa que lhe colocam na mesa é um prato com uma pequena moeda branca no meio. Depois, antes que pegue no garfo e na faca, o empregado despeja por cima um pouco de água e a moeda cresce até se transformar, como que por magia, num guardanapo enrolado.

Esta não é apenas uma graça de início de refeição. É o melhor retrato do restaurante: um espaço clássico, com uma decoração tradicional, mas onde toda a gente o procura surpreender em cada detalhe. E as maiores surpresas vêm da cozinha.

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A ementa

Aqui não estamos num restaurante Michelin, mas podíamos estar. Não apenas pelo preço (que está longe de ser barato), mas também pela comida (que é maravilhosa). O primeiro passo é escolher: pode optar por um menu de degustação, em que paga €69 por seis pratos (com duas sobremesas e sem vinhos); ou pelo serviço à carta. E aqui tem mais duas opções: pode escolher dois pratos (€44,50) ou três pratos (€54,50). Qualquer que seja a sua escolha (três entradas, três pratos principais, três sobremesas ou um de cada...) o preço é sempre o mesmo. Finalmente, tem ainda de acrescentar a isto todas as ofertas do chef que os empregados lhe vão trazendo entre pratos: os snacks, os amuse-bouche, os acompanhamentos para o café, etc..

Agora que está explicada a mecânica de todo o processo, não vale a pena dizer qual foi a nossa opção, pois não? 

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Os snacks

Antes de qualquer pedaço de pão, trazem-lhe um cocktail e um snack (eu sei que a expressão não é brilhante, mas foi a usada no restaurante). O cocktail que provámos era um granizado de menta com uma espuma de rum por cima. O gelo picado com a espuma faz uma mistura agradável e fresca para começar um jantar de Verão, mas eu achei o granizado ligeiramente doce demais para o meu gosto. A acompanhar, trouxeram uma mini-sanduíche divinal, feita com duas pequenas tostas de queijo e com um recheio de panacotta gelada com redução de laranja. O contraste entre o salgado do queijo e o adocicado da panacotta é fantástico.

 

O couvert

Só depois desta recepção, é que chegou o couvert (€3,75 por pessoa) composto por uma simpática selecção de pães: um pão de cebola bom e não muito forte, um de flor de sal e orégãos agradável, um de azeitonas óptimo e quase folhado e um de chouriço muito mole e claramente mais fraco. A acompanhar veio um pouco de manteiga e de azeite.

 

O amuse-bouche

Se estava convencido de que, depois do couvert, chegava a entrada, lamento dar-lhe a má notícia: está profundamente enganado. A cozinha do Vistas é liderada pelo chef catalão Jaime Perez, antigo colaborador de Ferran Adrià e um claro candidato a uma estrela Michelin. E isso transforma-o a si num candidato a um pneu Michelin (no meu caso, com os três pratos que pedi, terão sido três pneus Michelin). O amuse-bouche é só mais uma etapa desta maratona gastronómica, antes de entrarmos a sério no jantar. Infelizmente, o lombo de atum braseado com caviar de soja e rebentos de alfafa foi claramente o mais fraco da noite. O peixe vinha muito passado e sem grandes surpresas. Salvou-se o pastel de batata macio e saboroso e as originais ovas de soja que o acompanhavam.

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As entradas

Vamos lá fazer uma pequena pausa, só para dar o resultado ao intervalo. Nesta fase do jantar, ainda não tinha chegado qualquer dos pratos pedidos e cobrados na conta final. E, no entanto, já tínhamos comido três especialidades, além do couvert. Resultado: Sofreguidão, 3 - Bom Senso, 0. 

Ela bem me avisou de que pedir três pratos num restaurante destes era um exagero, mas, quando percebi que, apesar do sermão, Ela se preparava para fazer o mesmo, não hesitei dois segundos. E também não me arrependo, mesmo tendo ficado duas semanas a fazer a digestão.

O festival começou com aquele que provavelmente foi o melhor tártaro de atum que já provei. E digo provei porque a escolha foi Dela. O peixe vem fresquíssimo e bem cortado, em pedaços consistentes e suculentos. Depois leva por cima uma bola de gelado de wasabi, muito fresca e pouco doce que lhe dá um toque divinal. Ao lado, tem uma mistura de doce e salgado, com um molho de soja e outro de maracujá. E se isto já fosse suficiente para saltar de alegria, fique sabendo que ainda lhe trazem uma magnífica tosta feita com sementes para acompanhar. É, de longe, a melhor surpresa do Vistas.

Eu, por outro lado, escolhi um velouté de lavagante. Apesar da necessidade pseudo-chique de traduzir para francês um simples aveludado, estava muitíssimo bom. Primeiro trazem-lhe o prato para a mesa com dois lombinhos de lavagante muitíssimo bem cozidos e firmes, dois leves cubos de batata (a que "chiquemente" chamam soufflé) e umas deliciosas pontas de espargos verdes. Depois, regam tudo isto, à sua frente, com um creme macio e aveludado no qual se nota um discretíssimo toque a açafrão. Pode não ser tão fresco e veranil como o tártaro da minha querida Mulher Mistério, mas é magnífico.

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Os segundos pratos

Mais uma etapa do banquete, mais uma divisão do Casal. E aqui a vitória esmagadora vai para a ala masculina da família. A minha prezada Mulher Mistério optou por uma tempura de ovo do campo que basicamente é um ovo inteiro panado, servido em cima de uma cama de cogumelos enoki e regado com um puré de batata roxa trufada. Estava bom, mas notava-se pouco a trufa.

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Eu escolhi um risotto de carabineiros que tinha uma combinação perfeita de sabores e aromas do mar, além de vir também com uns tentadores cogumelos salteados e uma finíssima tosta crocante de queijo parmesão que substituía magistralmente o habitual parmesão ralado por cima.

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Os terceiros pratos

Sobremesa para acabar? Quem é que disse uma coisa dessas? Ela preferiu acabar a refeição com um lombo de dourada selvagem fresquíssimo, muito bem cozinhado, suculento e tão branco como a pele do Michael Jackson. Vinha servido por cima de uma cama de espinafres frescos, molhados e saborosos, com uns pinhões e uma fantástica espuma por cima. 

Eu, que sou uma boca bastante mais moderada, terminei com mais uma entrada: uma soberba vieira grelhada com um denso mas cremoso molho de alho francês, umas ovas de truta e uma emulsão de coentros.

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As sobremesas

A noite não podia acabar sem uma pequena incursão ao prato do lado – neste caso, ao prato do generoso casal de amigos que foi jantar connosco. Como se trata de pessoas ligeiramente mais civilizadas do que estes vossos amigos mistério, dividiram os três pratos em uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. E eu não consegui deixar passar essa opção em claro. Primeiro, consegui que me oferecessem um pouco do fantástico lombo de vaca charolês com uma tartelete de Wellington e depois perdi a vergonha e pedi directamente uma colherzinha do chocolate em diferentes texturas que vem para a mesa em várias formas: sorvete, mousse, crocante, biscoito e molho. Estava óptimo, mas não tão fabuloso como os pratos principais.

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Os cafés

E quando tudo levava a crer (por favor, não confunda com "querer") que a refeição tinha terminado, eis que surge mais uma pequena surpresa a acompanhar os cafés (€3,20): um prato com Calipos de chocolate, macarons, bolinhos de chocolate e um nogat.

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O ambiente

O Vistas fica dentro de um dos melhores campos de golfe do País e isso percebe-se pela decoração clássica e ligeiramente antiquada demais: seja pelas pesadas cortinas amarelas e azuis, seja pelas repetitivas mesas redondas, seja pelos imponentes cadeirões de braços. Nós optámos por ficar na esplanada, o que é um pouco menos formal e tem uma boa vista para o golfe e a serra, mas mesmo assim dá ares de varanda colonial na Índia britânica.

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O serviço

Houve um detalhe que fez toda a diferença. No final da refeição, o chef fez questão de vir até à mesa perguntar se tínhamos gostado e se estava tudo bem, o que, no caso de um Casal Mistério, é uma verdadeira raridade nos dias que correm. Mais raro ainda foi a simplicidade, a humildade e a simpatia com que o chef conversou com os clientes. 

De resto, o serviço foi sempre simpático e atencioso. Mas, como estávamos na varanda, houve algumas vezes que tive de fazer uns golpes de contorcionismo para conseguir chamar os empregados que tinham desaparecido. 

 

As crianças

Se quiser ir com crianças, o melhor é tentar as óptimas pizzas do À Terra, na Praia Verde. Aqui, não é o sítio ideal. Agora, se conseguir deixar as crianças com os avós, aproveite um fim-de-semana para ir até Tavira. Tem é de se despachar, porque o restaurante fecha no final de Outubro.

 

O bom

O risotto de carabineiros e a simpatia do serviço

O mau

A decoração demasiado pesada

O óptimo

O tártaro de atum com gelado de wasabi

 

Um óptimo jantar para si onde quer que as vistas estejam,

Ele

 

fotos: vistas

 

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