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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

os deliciosos petiscos e a looooonga espera para jantar no novo bairro do avillez em lisboa

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Duas horas é o tempo que um aluno do ensino secundário demora a fazer um exame nacional de Latim.

Duas horas é o tempo de duração de um jogo de curling (se tudo correr bem, claro!).

Em duas horas, é possível celebrar dois casamentos, dá para jogar uma partida e meia de râguebi, consegue-se ir de Lisboa ao Algarve de carro.

Em duas horas, pode embarcar num avião no Porto e sair em Paris para comprar uns deliciosos queijos num mercado francês.

Mas, em duas horas, eu e a minha querida Mulher Mistério não nos conseguimos sentar numa mesa para quatro pessoas, numa sexta-feira à noite, na Taberna, do Bairro do Avillez, em Lisboa. Em bom rigor, demorámos duas horas e quatro minutos desde que chegámos com um casal amigo até que nos sentámos no novíssimo restaurante da moda em Lisboa.

O novo espaço de José Avillez é um projecto claramente ambicioso demais para quem quer manter um serviço minimamente adequado ao século XXI. E esse é o maior problema do Bairro do Avillez – porque a nível da comida ou da decoração o restaurante é uma maravilha.

 

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O ambiente

Se não souber exactamente onde fica o número 18 da Rua Nova da Trindade, no Chiado, em Lisboa, não se preocupe: olhe à sua volta e procure uma pequena multidão aglomerada na rua – onde vir a confusão é onde está o Bairro do Avillez. O espaço divide-se em três áreas: o Páteo, onde pode marcar mesa e jantar confortavelmente, mas onde a comida não é tão surpreendente; a Mercearia, onde pode comprar produtos de cozinha durante o dia; e a Taberna, onde tem a comida mais original, mas onde não se marca mesa (veja mais detalhes aqui). E é assim que começa o seu calvário.

Qualquer um dos espaços está muitíssimo bem decorado. A Taberna tem mesas altas e baixas, um balcão comprido e chouriços pendurados no tecto, num estilo descontraído. O Páteo é claramente a área mais impressionante: decorado como se fosse um típico pátio lisboeta, tem azulejos, janelas e uma enorme mezanine onde é recriada uma varanda tradicional. No centro, uma clarabóia gigante dá uma luz impressionante ao espaço durante o dia.

Nós fomos uma primeira vez almoçar ao Bairro, durante a semana. Chegámos cedo, às 13h, e já não conseguimos mesa na Taberna. Acabámos por ir para o Páteo onde o ambiente é mais calmo e onde não estava muita gente.

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Da segunda vez, fomos jantar a uma sexta-feira. A multidão que se acumulava na rua quase cortava a estrada. À entrada, uma esforçada Relações Públicas tentava evitar o caos absoluto e anotava os nomes que depois seriam sentados por ordem de chegada. Perante aquele ambiente quase de dia de derby no Estádio da Luz, uns clientes acotovelavam-se para tentarem encontrar um canto onde pudessem beber uma cerveja. Outros protestavam com os empregados porque estavam à espera há mais tempo do que lhes tinham dito.

A Relações Públicas ficou com o nosso nome e disse que deveríamos ter mesa dentro de duas horas. No meio de toda aquela confusão, perguntámos se podíamos deixar o nome e ir beber um copo ao bar ao lado. E é aqui que se começa a perceber o que um ambiente caótico pode fazer a um serviço simpático.

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O serviço

– É melhor não, porque a mesa pode ficar livre antes.

– Mas temos de ficar aqui em pé, à espera?

– Podem ir tomando uma bebida.

– E não podemos ir a algum lado e deixar o número de telefone, para o caso de a mesa ficar vaga antes...

– Isso não posso.

– Não pode mesmo?

– Não... não sou uma lista telefónica (risos)... 

O sorriso simpático e meio ingénuo e o ar semi-desesperado perante a confusão ajudaram a amenizar a resposta. A minha querida Mulher Mistério ainda perguntou se era possível esperar no terraço interior, que fica dentro do restaurante e que separa a Taberna do Páteo. Mas também não teve sorte.

– É melhor não. Depois não sei onde é que vão estar. 

Talvez seja relevante esclarecer que o terraço fica a menos de dez metros de distância do local onde nos encontrávamos e, atendendo ao facto de não ter um índice populacional de mais de quatro pessoas por metro quadrado, talvez fosse mais fácil encontrar-nos ali do que na multidão da entrada.

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Os petiscos em pé

Mentalizados das duas horas de espera, decidimos seguir o conselho da Relações Públicas e tentar beber um copo. A Taberna tem dois balcões – um que dá para a rua e outro que dá para a entrada – onde os clientes podem beber uma cerveja e comer uns petiscos enquanto esperam. A ideia funciona lindamente quando estão dez pessoas à espera. Mas se estiverem mais de 50, uma boa ideia pode rapidamente transformar-se no metro à hora de ponta.

Fomos tentando aproximar-nos calmamente do balcão interior onde conseguimos finalmente chegar cerca de meia hora mais tarde. Aí pedimos então umas boas cervejas artesanais para os quatro e...

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...O Couvert

Esta é a única atenuante da espera. Se conseguir um lugar junto ao balcão ou numa das mesas altas, pode verdadeiramente começar a jantar – janta em pé, mas janta. Enquanto esperávamos por uma tábua de queijos para acompanhar as cervejas, trouxeram-nos um cesto com pão saloio e uma óptima broa de milho (€1,50). Ao lado, vinham umas boas e tenrinhas azeitonas marinadas e uma deliciosa manteiga dos Açores, feita com leite de vaca e tão leve que quase parecia ter a textura de uma mousse. (Da vez em que fomos almoçar ao Páteo, trouxeram-nos esta manteiga em versão fumada, mas achei-a com o sabor fumado intenso demais.)

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Os petiscos

Passados poucos minutos, chegou a tábua de queijos e enchidos (€12) que nos soube lindamente. Vinha com uns bons queijos secos cortados em palitos fininhos, uns paios quase da grossura de uma folha de papel e um presunto agradável. 

A tábua foi só uma inspiração para nos abrir o apetite. Perante a outra hora de espera que se começava a vislumbrar no horizonte, decidimos pedir mais uns petiscos fáceis de comer em pé. E para essa função estão lá as pipocas de courato (€2): são umas deslumbrantes pipocas feitas à base de couratos em vez de milho. Para alegria da minha querida Mulher Mistério, não têm nada a ver com o recheio enjoativo e gorduroso daquelas "sandes" servidas à porta do estádio do Sacavenense em dia de jogo. O sabor é o dos couratos, ligeiramente picante, mas a textura é estaladiça e leve – tão leve que, por dentro, estas pipocas são ocas. Além disso, não se nota nada da gordura.

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A seguir, vieram uns croquetes de novilho (€4) que ficam muito atrás das pipocas. São saborosos, mas embucham um bocadinho. Levam uns agradáveis pickles de cebola roxa por cima e uma mostarda muito leve.

A degustação em pé continuou com uns cornettos de carapau picante (€4,50 cada um). São caros, mas muitíssimo bons. O único defeito é que são picantes demais, o que acaba por abafar um pouco o sabor fresco do peixe. Feitos com o mesmo cone de alga nori, estaladiço e muitíssimo fininho, dos cornettos do Minibar (veja aqui), estes levam uns deliciosos cubos de carapau fresquíssimo, pickles e maionese fumada. Se não fosse o excesso de picante, seria perfeito.

Antes de passarmos para a mesa, ainda comemos umas azeitonas explosivas XL (€5 por duas). São iguais às do Bacalhau à Brás do Café Lisboa (veja aqui), mas em versão gigante. No Bairro do Avillez, as azeitonas explosivas são servidas em colheres, sem qualquer acompanhamento. Eu confesso que sou fã absoluto deste petisco feito com sumo de azeitona no interior e com uma fina película no exterior. Mas uma coisa é comê-las misturadas com um fantástico bacalhau à Brás, em que os sabores do bacalhau, dos ovos e das azeitonas se misturam na perfeição; outra é saboreá-las sem mais nada a acompanhar, e aí o sumo de azeitona torna-se até ligeiramente enjoativo.

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Os petiscos de garfo e faca

Quando nos preparávamos para começar a provar o maravilhoso ceviche de tremoços (€3), chegou a notícia mais aguardada da noite: a mesa estava pronta. Por isso, conseguimos comer esta delícia já sentados. A mistura dos tremoços com o molho de peixe e pickles é completamente surpreendente. E mais ainda quando trinca a deliciosa cancha, o milho peruano frito e estaladiço que, combinado com os tremoços macios, é fantástico.

As surpresas continuaram com a magnífica saladinha de orelha de morcego (€4). Pode respirar fundo que José Avillez ainda não se travestiu de Conde Drácula. Na verdade, esta é uma fantástica salada de algas, bem temperada e avinagrada, que vem com uma consistência gelatinosa completamente surpreendente.

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A minha querida Mulher Mistério ainda insistiu em pedir um maravilhoso gaspacho de cerejas (€5) que já tínhamos provado no Cantinho do Avillez (veja aqui) e, por isso, passámos ali cinco constrangedores minutos a tentar dividir uma sopa por quatro pessoas diferentes. Mais fácil de partilhar é a portuguesinha (€4,50), uma óptima empada de cozido à portuguesa que vem com o delicioso sabor dos enchidos e da carne dentro de uma massa de empada agradável. Nós dividimos duas pelos quatro e chega perfeitamente.

No entanto, ainda conseguimos encontrar espaço abdominal para dois últimos petiscos: uma fantástica sanduíche de leitão (€9), com um agradável bolo do caco, a carne muito macia e cozida a baixa temperatura e uns pickles de algas e salicórnia que lhe dão um toque avinagrado; e um bacalhau com broa e creme de cebolada (€9) que já foi claramente um exagero.

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As sobremesas

Exagero ou não, se há coisa que este vosso casal amigo não dispensa é uma boa sobremesa. E aqui a escolha dividiu-se: eu insisti no caramelo salgado (€4,50) que é uma adaptação da avelã ao cubo e que é feito com gelado, espuma, bolo e creme de caramelo, e que ainda leva umas pipocas salpicadas por cima; ela persistiu num sorvete de amarguinha e limão (€2,50 uma bola) que estava um pouco enjoativo demais.

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As crianças

O restaurante é descontraído mas, a não ser que o seu filho seja a única criança capaz de aguentar mais de duas horas em pé, à espera de uma mesa, o melhor é deixá-lo em casa.

 

Leia ainda:

 

O bom

A decoração: mais a do Páteo do que a da Taberna

O péssimo

A espera de duas horas em pé

O óptimo

A comida, em especial as pipocas de couratos, o ceviche de tremoços e a salada de orelha de morcego

 

Uns óptimos petiscos para si onde quer que esteja,

Ele

 

fotos: paulo barata/bairro do avillez; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.

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Bairro do Avillez
Rua Nova da Trindade, 18, Lisboa
Páteo: todos os dias, das 12h30 às 15h e das 19h às 00h00
Taberna: todos os dias, das 12h às 00h00
T: 215 830 290

 

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