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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

pizzaria luzzo: a pizza de trufas que afinal sabia a queijo

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Entre uma ementa plastificada e presa no canto por uma argola, ao estilo restaurante chinês da Quarteira, ou um tablet directamente ligado à cozinha para fazer os seus pedidos, não há grandes dúvidas, pois não? É claro que não. Só de pensar nos dedos ensopados em molho de tomate que por ali já deslizaram para escolher a sobremesa, eu não hesitaria dois segundos em optar pela ementa da Quarteira. O problema é que Ela não sou eu e eu não sou Ela. E, como qualquer criança desejosa de experimentar o brinquedo novo, acabámos com o tablet gorduroso no colo.

Inaugurada há um ano, a pizzaria Luzzo apareceu como um restaurante capaz de misturar modernices, como uma ementa num tablet, com tradições, como um forno a lenha. E passados os primeiros meses de euforia, cá estamos nós para experimentar finalmente as novidades.

 

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A ementa 

Ao longo de uns solitários 10 minutos, Ela fez questão de ler toda a ementa, abrir cada uma das fotografias e testar as mais insignificantes funcionalidades do gadget. Ao fim desses dez minutos, perguntou:

- Então, vamos lá ver que pizzas é que têm?

É isso mesmo: desta vez, o serviço foi demorado, mas a culpa não foi dos empregados contratados pelo restaurante – foi da voluntária que se sentou ao meu lado. O tablet permite tudo – até pedir uma pizza dividida por dois – mas não acaba com a curiosidade dos clientes deslumbrados por tecnologia. E num almoço, durante um dia de semana, essa demora pode ser fatal.

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As entradas 

Enquanto Ela brincava com o aparelho, eu pensava na forma mais eficaz de fazer rapidamente o pedido do couvert (€2,50). Um minuto depois de Ela ter carregado no botão "Enviar Pedido", surgiram as duas coca-colas (light para Ela, claro!) e passados dois ou três minutos, a focaccia cozida e aromatizada em forno a lenha chegou, mas com ela veio também o carpaccio. Apesar do congestionamento na mesa, ainda deu para provar. O pão é saboroso, mas um pouco denso demais – enche bastante. A acompanhar, veio um azeite virgem com um creme balsâmico doce e um razoável molho pesto feito no restaurante. 

Como a família inteira está de dieta, por imposição da minha querida Mulher Mistério, que se recusa a ter ao seu lado, num raio de menos de 100 metros, algum ser vivo a saborear comida calórica, vi-me forçado a dividir uma entrada e uma pizza.

Como entrada, escolhemos um carpaccio de bresaola (€8,75) com rúcula fresca, lascas de parmesão e alcaparras, que estava muito saboroso. No entanto, e mesmo apesar de ser de bresaola, achei-o ligeiramente grosso demais, aliás tal como as lascas de parmesão de que gosto muito fininhas, quase transparentes. O prato vem temperado com o mesmo creme balsâmico do couvert, que lhe dá um adocicado desnecessário. No mundo ideal, ficava pelo bom azeite, flor de sal e pimenta moída no momento.

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A pizza 

Quando eu vejo a palavra "trufa" numa ementa, os olhos saltam-me das órbitas. Agora imagine o olhar tresloucado com que fiquei quando li a palavra "trufa" duas vezes escrita no mesmo prato. Estou a falar da pizza tutti-trufi (€20,40), cujo nome deve ser lido com cautela para não ser confundido com o da assustadora pizza tutti-fruti. A tutti-trufi é feita com trufa negra fatiada, lascas de parmesão e ainda uns salpicos de azeite trufado por cima.

O problema é que a expectativa foi manifestamente mais exagerada do que a realidade. Quando a pizza nos chegou à mesa atenciosamente dividida em dois, não trazia nem um leve aroma a trufas. E mesmo depois de provar, o intenso sabor da trufa não constou. Não sei se foi da qualidade da trufa, não sei se foi da quantidade da trufa, o que sei é que comi uma pizza de parmesão. Não estava má, mas era uma pizza de parmesão. A massa é fininha e estaladiça e a apresentação é cuidada – mas infelizmente não vale os €20,40.

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O ambiente 

À entrada, há uma enorme mesa comprida onde se poderiam sentar quase metade dos convidados para um banquete do rei Luís XIV. Se preferir uma conversa um pouco mais discreta, também tem mesas para duas ou para quatro pessoas. A decoração é moderna e elegante, com detalhes fantásticos: a parede está coberta de ripas de madeira desencontradas, as pizzas são servidas em tábuas redondas da mesma marca usada por Jamie Oliver (a portuguesa Gradirripas) e o balcão é forrado com azulejos que não ligam uns com os outros e que dão vida ao ambiente. 

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O serviço 

A única parte condenável – o atraso a recolher os pedidos – é da responsabilidade da minha querida Mulher Mistério. Houve aquele pequeno problema de o couvert ter chegado ao mesmo tempo da entrada, mas foi claramente por antecipação da entrada e não por atraso do couvert. De resto, o esquema do tablet funciona bem e sem falhas e acelera bastante as coisas.

 

As crianças 

Pedir a um restaurante de pizzas que tenha um menu infantil é o mesmo que pedir a um trapezista para dar uma cambalhota num colchão. Está certo que há aqui alguns preços de adulto – a nossa pizza custava €20,40 – mas uma margarita custa €5,90 e há várias opções na casa dos €8.

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O bom 

A mesa comprida

O mau 

A pizza de trufas que não sabe a trufas

O óptimo 

A decoração

 

Uma boa pizza para si onde quer que esteja,

Ele

 

fotos: luzzo