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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

quer uma ideia diferente para almoçar na páscoa? um restaurante com uma vista única de 180º em pleno alentejo

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Há poucas coisas melhores do que um hotel que, além de ser um bom hotel, é também um óptimo restaurante. Quer dizer, se calhar há, mas o que para aqui interessa é a surpresa de marcar um fim-de-semana num hotel de charme e ainda ter um fantástico jantar. Foi isso que me aconteceu quando a minha douta companheira mistério elegeu a Herdade da Cortesia para tirarmos dois dias de férias da nossa árdua profissão quotidiana: treinadores de uma imparável equipa de futsal composta por quatro enérgicos e indisciplinados elementos que não acatam uma única ordem do mister sem um nariz retorcido. E a Cortesia tem ainda outra vantagem, especialmente nestes dias de férias da Páscoa que se aproximam: se não quiser passar um fim-de-semana fora, pode sempre embalar a família dentro da viatura e vir aqui almoçar. 

 

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O ambiente 

O restaurante fica no andar de cima do hotel e, além de ter uma enorme parede em vidro com uma vista fantástica para a barragem do Maranhão, tem ainda uma esplanada onde se toma um espectacular gin tónico para abrir as hostilidades. É o sítio ideal para um fim de tarde tranquilo antes do jantar, mas, na Primavera, também sabe bem tomar aqui um aperitivo antes do almoço.

De resto, o restaurante tem uma decoração sóbria e discreta: não impressiona, mas também não incomoda. O único senão poderão ser os estágios que as equipas internacionais de remo costumam fazer no hotel e que inundam as zonas comuns de homens altos, louros e musculados (um perigo!) vestidos com calções, meias brancas às riscas e xanato da Speedo no pé (graças a Deus, ninguém é perfeito!). No entanto, e como qualquer equipa profissional que se dê ao respeito, estes herdeiros dos vikings não têm os mesmos horários dos comuns mortais: só corre o risco de se cruzar com os Cristianos Ronaldos do remo se almoçar ao meio-dia ou jantar às sete da tarde. 

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A ementa 

Aqui estamos no Alentejo, o paraíso do pão, do paio e das azeitonas. E é tudo isso que vem para a mesa no 180, o restaurante da Herdade da Cortesia, mal nos sentamos na cadeira. Ultrapassado o pânico inicial provocado pelo preço do couvert (€4,50), percebe-se depois que se trata de um couvert substancial. O pão é alentejano e, apesar de não ser o melhor pão alentejano do Mundo, não está nada mal. As azeitonas vêm na forma de uma pasta suave e saborosa. Mas o melhor é, de longe, o paio de Ervedal, uma pequena freguesia próxima do hotel: o paio é cortado muitíssimo fininho, quase transparente, e tem a quantidade perfeita de sal. É viciante. Além de tudo isto, ainda trazem um óptimo azeite onde pode molhar o pão alentejano. O único inconveniente: esqueceram-se da preciosa faca que o mundo civilizado adoptou como o utensílio adequado para barrar a pasta de azeitona no pão. Nada que não se tivesse resolvido mal chamámos a empregada.

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As entradas 

Entrados nesta fase da permanente dieta (é claro que este era para Ela o Dia da Asneira) e da Quaresma, habituámo-nos a partilhar tudo. Primeiro, pedimos o presunto com ovos de codorniz (€7). A combinação tem tanto de calórica como de acertada, mas vinha com dois detalhes que se dispensavam: primeiro, as fatias de presunto estavam grossas demais, potenciando o salgado do presunto; depois, trazia um creme de balsâmico por cima que era muito doce. E esta combinação de doce e salgado acentuados é um exagero para o meu delicado palato. 

A seguir chegou uma deliciosa perdiz de escabeche com umas torradas de pão alentejano maravilhosas e fininhas (€10). Temperada com louro, pimenta em grão, cebola e alho, a perdiz tem um ligeiro toque adocicado que a torna especial. Ainda por cima é servida fria como eu gosto. As torradas de pão alentejano fizeram um sucesso tão grande junto destas duas bocas em pit stop da dieta que tivemos de pedir um reforço. Enquanto esperávamos pela segunda leva de torradas, a empregada veio perguntar se podia trazer o prato seguinte. Ainda hesitámos, mas acabámos por dizer que sim. Resultado: o prato chegou ao mesmo tempo do que as torradas.

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Os pratos principais 

E que prato era esse, perguntam vossas excelências? Pois era um delicioso cação com migas de bacalhau e manjericão (€16). O peixe vem em filetes muitíssimo bem fritos que se separam em suculentas lascas. As migas são tipicamente alentejanas – tão consistentes que conseguem alimentar toda a selecção dinamarquesa de remo – mas têm a maravilhosa surpresa do manjericão que ajuda a cortar qualquer hipótese de o acompanhamento se tornar demasiado enjoativo. Infelizmente, não consegui comer mais do que uma ou duas garfadas de migas, porque ainda nos esperava o último prato.

Para terminar o jantar também à alentejana, pedimos uma fantástica empada de perdiz (€19,50), claramente o melhor prato da noite. Primeiro, a massa da empada é muito fininha e nada enjoativa. Depois, o recheio está cozinhado mesmo no ponto e tem um fantástico molho que torna a perdiz na ave menos seca do planeta. E, finalmente, ao lado da empada vem um doce de pimento, no ponto perfeito entre o doce e o salgado, que torna este prato numa verdadeira perdição. A acompanhar, são servidos uns fantásticos grelos salteados com alho.

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A sobremesa 

Conseguido um novo embalo, tivemos de pedir uma sobremesa: um gelado de lima com morangos salpicados e glacé de Modena (€6,50) que estava longe do brilhantismo da perdiz – o próprio gelado estava um pouco empapado.

 

O serviço 

Foi sempre correcto e atencioso, sem grandes simpatias mas também sem grandes falhas. O único ponto dispensável foi a pressa em trazer o cação e despachar o nosso jantar. Está certo que já eram quase 23h, mas quem disse que servia até à meia-noite não fomos nós.

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As crianças 

Como não levámos filhos, não foi um assunto que nos preocupasse muito. No entanto, há um menu infantil com spaghetti à bolonhesa (€10), hambúrguer no prato, com ovo, batatas fritas e arroz (€10) ou bife com os mesmos acompanhamentos (€15). Feita a referência, tenho só uma dúvida: porque é que quase todos os restaurantes partem do princípio que uma criança é um ser vivo colossal que só se alimenta com dois acompanhamentos com a dimensão calórica de arroz e batatas fritas juntos e ao vivo no mesmo prato? E, como se isso não chegasse, ainda têm direito a um shot de colesterol na forma de ovo estrelado...

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O bom 

A comida, em especial a empada de perdiz com doce de pimento

O mau 

A pressa em trazer a comida

O óptimo

A vista

 

Um bom jantar para todos os alentejanos onde quer que estejam,

Ele

 

fotos: herdade da cortesia