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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

quinta do vallado, um refúgio de sonho onde o vinho é rei

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Imagine um hotel moderno, sofisticado, cercado de vinha, ou melhor, de vinho por todos os lados. É uma ilha de emoções. Um paraíso para quem, como nós, adora esta bebida inspirada. E depois há o conceito: Wine Hotel. A expressão em si é música para os nossos ouvidos. Resultado: acordávamos a desejar que fosse meio-dia, a hora que estipulámos de razoável para beber o primeiro copo de vinho branco. A partir daí, entre provas de branco, tinto e portos secos, vintage e tawny, foi a verdadeira loucura.  

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Lá fora

O hotel está dividido em dois edifícios: o histórico, que data do século XVIII, entretanto recuperado, e o novo, do século XXI. Optámos pelo mais recente. Quando chegámos, já perto das oito da noite, depois de vários quilómetros de curva e contracurva, estavam 4 graus. Arrumámos o carro e subimos a escadaria imensa que dá acesso ao hotel, plantado nas típicas encostas das margens do Douro. À nossa esquerda, o edifício construído em 1733 e recentemente recuperado. À direita, o novo, projetado pelo arquiteto Francisco Vieira de Campos, para onde entrámos rapidamente, já com o nariz a congelar.  

Primeiro impacto 

A receção aqueceu-nos a alma. Com paredes e chão de xisto, a decoração é sóbria e elegante. Ao fundo, a miragem das salas e da biblioteca, com as suas três lareiras acesas, pareceu-nos um milagre. Mas todo o encantamento se desvaneceu quando nos anunciaram que não serviam jantares, porque “a taxa de ocupação não justifica”. Gelámos novamente com a perspetiva de ter de voltar a sair. Lá fomos à Régua jantar ao Douro in e regressámos rapidamente para aproveitar o hotel. 

Cá dentro

O quarto é confortável e clean (dispensávamos um gigantesco buraco na parede junto à ombreira da porta), e a casa de banho, toda ela em xisto preto, é minimalista e trendy. A varanda tem uma vista bonita mas não é deslumbrante. A cama dá para mais de duas pessoas (cada um sabe de si! Estou aqui para informar…) e é super confortável. Os lençóis, endredon e almofadas são frescos e macios. Mas onde se estava realmente bem era em frente às lareiras da sala e da biblioteca que tornavam estes espaços os mais quentes e acolhedores da Quinta do Vallado. Por isso, acabámos o dia da melhor forma: a ler um bom livro, com um excelente vinho, ao som do crepitar das chamas e da música ambiente de um discreto iPod colocado numa das mesas da sala.

O pequeno-almoço

No dia seguinte, fomos surpreendidos por um pequeno-almoço de rei: inúmeros pãezinhos, croissants, bolo, fruta variada (até romã!!!), ovos, bacon, presunto, tomate, azeite, manteiga, sumo de laranja natural, queijos, fiambres diversos, mortadela, queijo fresco, compotas caseiras, frutos secos, doce, leite, café, chá, expresso, e até nutella! Ufa! Estava mais para brunch do que para pequeno-almoço, tal era a fartura. Tudo isto servido com requinte e muito bom gosto, numa sala de jantar arejada, com duas janelas enormes que convidam a paisagem a fazer-nos companhia, separadas por uma original lareira suspensa, que aquecia ainda mais o ambiente.

Pormenores que fazem a diferença

No dia seguinte, o pequeno-almoço já foi de príncipe. A "taxa de ocupação" claramente não justificou uma ida ao supermercado. Passou de ótimo a razoável em apenas 24 horas. E a única lareira acesa era a da sala de jantar. As da sala e da biblioteca mantinham as cinzas da véspera. A mesa de jogo da noite anterior permanecia intocável, com os nossos copos de vinho do porto e as chávenas de café por levantar. O serviço, "quando a taxa de ocupação não se justifica", é manifestamente insuficiente, apesar da simpatia dos dois únicos funcionários que nos atenderam durante toda a estada. Por isso, decidimos dar uma ajuda e acendemos nós as lareiras.

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O jantar

Depois da desilusão da primeira noite, ofereceram-nos a hipótese de jantar no hotel no segundo dia. A mesma sala do pequeno-almoço, com a sua lareira suspensa (acesa!) abriu só para nós. O menu era fixo, mediano e caro: por 35 euros por pessoa, comemos uma canja de galinha razoável, um medíocre bacalhau com broa requentado, e um petit gateau com gelado de baunilha de sobremesa. Os vinhos da casa salvaram a honra do convento. Mas, pelo menos, não tivemos de enfrentar o frio lá fora...

O Douro

Os dias foram passados a descobrir a região, linda com as suas inúmeras quintas e paisagens deslumbrantes, sempre com o Douro como protagonista. A que mais me impressionou, não pelo vinho (porque, francamente ao fim de tanta prova, já não distinguia o tawny do vintage, o tinto do branco) mas pela qualidade e o profissionalismo da visita, e pela beleza da propriedade e da vista, foi a Quinta do Seixo, da Sogrape. Cinco estrelas! 

Em memória da Dona Antónia

No último dia, ao final da tarde, regressámos ao hotel para fazermos finalmente a visita às vinhas e à adega da Quinta do Vallado. Num registo mais intimista mas não menos profissional, dada a proximidade que já tínhamos com o nosso guia, um simpático funcionário do hotel. A paixão com que nos contou a história da quinta, pertencente aos herdeiros da mítica Dona Antónia, e nos explicou todo o processo, desde as vindimas ao engarrafamento, fez-nos sonhar com a nossa própria vinha. E decidimos começar a treinar logo ali, tornando-nos peritos na matéria: atirámo-nos a mais uma prova de vinhos.

O bom

A decoração do hotel, a vista

O ótimo

O pequeno-almoço (no primeiro e último dia), as lareiras, a simpatia do nosso guia durante a visita às caves

O mau

O jantar não é brilhante, o serviço é insuficiente quando a "taxa de ocupação não se justifica"

O péssimo

Não há péssimo

 

Um ótimo descanso,

Ela

a bica do sapato e o brilhante bacalhau escalfado a baixa temperatura

A ementa

Já foi melhor? Já. Já foi mais surpreendente? Já. Já foi mais da moda? Já. Mas também já foi mais caro, mais cagão, mais difícil de marcar e mais fácil de detestar. Para a Bica do Sapato ser um restaurante obrigatório só precisa de saber uma coisa: ainda tem o bacalhau fresco escalfado em azeite virgem em cima de à Brás? E isso está lá. Tão bom como dantes e com mais algumas vantagens: os preços estão mais suportáveis e o serviço está menos insuportável. Mas vamos ao que interessa. Este bacalhau, cozido a baixa temperatura, parece um peixe macio, branco, que quase se desfaz na boca. Vem numa posta alta e com a quantidade de sal ideal, sem aquelas pontas amareladas nem os fios irritantes que se enfiam nos espaços entre os dentes. É outra coisa. Branco brilhante, divide-se facilmente em finas lascas com umas gotas de azeite e está por cima de uma cama de ovos à Brás: ou seja, ovos mexidos, cebola e batata frita - sem mais bacalhau. A mistura é simplesmente um dos melhores pratos que se pode comer em Lisboa. 

Mas há mais. O risotto de alheira é uma delícia – apesar de não ser O-MELHOR-RISOTTO-DO-MUNDO – e as entradas estão ao nível de um bom restaurante: ostras frescas, carpaccio de mero e salmão com aneto, canja de borrego ou tártaro de bacalhau fresco com poejo. Mas não hesite: se tiver de escolher entre os dois bacalhaus, o primeiro é obrigatório.

Última novidade, especial crise: por €21,50 pode escolher o Menu Bica do Sapato, com uma entrada, um prato, uma sobremesa e um copo de vinho. Mas o bacalhau escalfado não é uma hipótese de escolha deste menu. E sem bacalhau escalfado mais vale ir a outro sítio. 

O serviço

Houve um tempo em que os empregados olhavam para si como o Carson de Downton Abbey olha para alguém que não tenha uma casaca vestida: a espelunca desceu à cidade. Hoje, a coisa está ligeiramente melhor. Em quatro empregados, só fomos desprezados por um (o da entrada), o que, na Bica do Sapato, é um avanço de 100 anos de civilização. O empregado que nos serviu sorria, pedia desculpa quando se enganava e até perguntava se estava tudo bem. É estranho mas, com a crise, até na Bica do Sapato pode haver gente simpática.   

O ambiente

Este pode ser o maior problema. Numa quinta-feira à noite, o restaurante estava a menos de um quinto - e metade eram grupos de americanas insufladas a beberem gins em cascata. De resto, a decoração era surpreendente há 15 anos. Hoje, parece que entramos na USS Enterprise do Caminho das Estrelas. Já não há a divisão entre o restaurante e a cafetaria, o que traz um problema: se não for fumador, terá de ir para a zona do antigo restaurante, que é o mesmo que dizer - ficará no espaço menos arejado e mais pretensioso. Mas tudo isto é o menos quando temos à nossa frente o bacalhau escalfado.

 

E já agora, um bom Ano Novo para si, onde quer que esteja,

Ele

salada de burrata com tomate, trufas e pinhões

 

Minhas queridas senhoras tão preocupadas com a linha,

 

Da mesma maneira que o calor do Verão não é motivo para virarem vegetarianas, o frio do Inverno não é desculpa para ostracizarem as saladas das vossas vidas. Temperaturas abaixo de dez graus não têm de ser sinónimo de chouriço assado a pingar gordura em cima de uma canoa de barro. Isso também é bom. Mas o Inverno não tem de ser só isso. Feita a introdução, aqui vai uma dica de salada para depois do Natal ou para um Ano Novo vegan. Primeiro, a matéria-prima. Tomate que é verdadeiro tomate vem da horta. Da sua ou da de alguém. Por isso, se não tem um pequeno tomateiro em casa (não fiquem abespinhadas que não é assim tão difícil), arranje uma daquelas empresas de cabazes biológicos e encomende tomate cherry. Corte os tomatinhos ao meio e coloque-lhes em cima burrata às fatias (qualquer semelhança com mozarella é pura coincidência - esta pode ser comprada em qualquer mercearia melhorzinha) e uma folha de manjericão (se for da horta, melhor).

A seguir, tempere com azeite, vinagre balsâmico e flor de sal. E depois dê-lhe o toque de Inverno: umas raspas de trufa (as nacionais, são bastante piores, mas estão à venda no Jumbo por um preço acessível) e um pouco de azeite de trufa. Como já temperou com o azeite normal, basta pôr um bocadinho de azeite de trufa para dar sabor. Mesmo antes de servir, polvilhe com pinhões. O resultado... bom, o melhor é ver pela fotografia.

 

Como dizia o outro, um bom fim de ano para si, onde quer que esteja,

 

Ele

natal

 

 

O nosso Natal é uma loucura de almoços e jantares. Começamos a 24 às 13h00 e acabamos dia 25 à meia-noite, tudo isto numa correria de um lado para o outro: casa da mãe, casa da sogra, casa da tia, casa do sogro, carregados de crianças, presentes, vinho e bolo-rei. A azáfama é tal que não vamos conseguir aproximarmo-nos sequer de um computador. E se tentar tocar no Ipad ou no Iphone, corremos o risco de ser olhados de lado por toda a família. Mas depois do bacalhau, do perú, dos sonhos, das rabanadas, e muito mais, vezes quatro (ufa!), voltamos com uns quilos a mais e cheios de novas ideias, boas receitas e mais críticas mistério...

Até dia 26!

 

Feliz Natal!

 

Por Ela