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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

the insólito, o restaurante da moda onde quase tudo correu mal

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Primeiro aviso, durante a marcação:

- Boa tarde, queria fazer uma reserva para oito pessoas, para as 21h.

- Com certeza, mas queria avisá-lo que só damos 15 minutos de tolerância. Ao fim de 15 minutos, entregamos a mesa a outros clientes.

Segundo aviso, ao desligar o telefone:

- Está confirmado, mas queria relembrá-lo de que só damos 15 minutos de tolerância. Ao fim de 15 minutos, entregamos a mesa a outros clientes.

Terceiro aviso, no dia do jantar:

- Estou, boa noite, fala do restaurante Insólito, queria confirmar a sua reserva para hoje à noite. E gostaria de o relembrar de que só damos 15 minutos de tolerância.

Como pode imaginar, depois de todos os avisos, cheguei ao Insólito para um supostamente descontraído jantar de amigos com os índices de stress ao nível dos do Menino Tonecas cada vez que se atrasava a entregar o trabalho de casa.

 

 

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O ambiente

O Insólito – peço desculpa, The Insólito – fica no olho do furacão do turismo lisboeta, entre o Chiado e o Príncipe Real, mesmo em frente ao miradouro de São Pedro de Alcântara. E se ainda houvesse alguma dúvida em relação à importância do turismo para este negócio, a empregada que nos recebeu à chegada acabou com qualquer mal entendido. Com um sorriso na cara e um walkie talkie na mão, explicou os três avisos sobre os 15 minutos de tolerância:

– Sabe o que é? É que esta zona é muito turística e temos sempre pessoas a entrar à procura de mesa, sobretudo estrangeiros.

Ainda pensei em ir buscar uma cabeleira loura ao carro e pôr o meu melhor sotaque à Miguel Stanley, mas já era tarde demais.

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Preferi subir até ao último andar do edifício, onde fica o restaurante, naquele que é o elevador privado mais antigo de Lisboa. Forrado a papel de parede, com uma porta de madeira e espaço para apenas duas pessoas de cada vez, parece que estamos a entrar num filme da Agatha Christie.

O restaurante divide-se entre uma sala pequena, decorada com óptimo gosto e originalidade, entre o rústico e o vintage (o balcão do bar é iluminado por um conjunto de lustres antigos, todos diferentes uns dos outros); e um terraço coberto com um toldo e com uma vista deslumbrante para o castelo de S. Jorge, o rio Tejo e a parte mais bonita de Lisboa.

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Como o tempo já não vai para quente, preferimos ficar no interior onde nos deram, para oito pessoas, duas mesas juntas que dariam à vontade para sentar 12 pessoas. É claro que eu gosto de estar à larga, mas ficar sentado numa mesa em que, com o meu grau de miopia, quase não vejo o senhor da ponta não é a melhor sensação do mundo. Ainda perguntámos se seria possível separar as mesas e sentarmo-nos apenas numa delas, mas explicaram-nos que não:

– Pedimos desculpa, mas é uma questão estética.

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Outro problema é o das cadeiras. São rústicas, bonitas e dão um ar especial à sala. Mas, na verdade, são bancos altos meio desengonçados. O meu, por sorte, calhou com encosto, mas um dos outros não tinha qualquer apoio para as costas.

Novo pedido, nova recusa:

– Não tem mais cadeiras com encosto?

– Não, estão todas lá fora.

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A ementa 

Nesta fase da minha vida, só queria um couvertzinho para poder trincar qualquer coisa. Ainda esperei, mas nada. Vieram as ementas, veio o empregado tirar os pedidos e nada. Quando perguntei a um dos empregados se havia couvert, disse que já o trazia. Quando, dez minutos depois, voltei a perguntar a outro empregado, respondeu:

– Mas não me pediu nada…

De facto, não LHE tinha pedido nada, mas pensei que bastasse pedir a um dos empregados para a mensagem chegar até à cozinha. De qualquer forma, convém perguntar aos clientes se vão querer couvert porque é difícil adivnhar quais os restaurantes que trazem logo e quais os que esperam que os clientes peçam.

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O couvert

Chegado o conduto, tratava-se de um pão de Mafra razoável e de uma foccaccia com passas melhorzinha. A acompanhar, chegou um copinho com azeite e um paté de fígados de aves com gelatina de vinho do Porto que o empregado fez questão de apresentar como foie gras.

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Os cocktails

No meio da grande dificuldade em pedir o couvert e da pequena quantidade servida, fiquei manifestamente faminto. E para isso não ajudou o tempo que a comida demorou a chegar à mesa. Às 22h30, uma hora e meia depois de termos passado a porta da rua, ainda não havia sinal de entradas (convenhamos que um restaurante tão preocupado com o atraso dos clientes podia tentar evitar atrasos de uma hora e meia do serviço).

Eu consegui ir passando o tempo com um óptimo cocktail Gimlet Insólito, feito com Martin Miller's, maçã verde, xarope e sumo de lima espremido. Já um dos nossos amigos não teve a mesma sorte. Apesar de ter pedido o cocktail logo que chegou, só lho trouxeram depois de ter acabado de comer a entrada, quando já tinha bebido até um copo de vinho.

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As entradas

Quando finalmente vieram as entradas, eu vi a Minha Querida Mulher Mistério deliciar-se com um carpaccio de pato fumado com tomilho, ravioli de laranja, compota de pêra e vinho do Porto. E como se isso não bastasse, ao lado servem-lhe um cocktail Smoke Me para acompanhar. Como o nome indica, o Smoke Me é feito com bourbon Jack Daniel's, xarope de maçã verde, sumo de lima e tomilho fumado. Mas, quando na minha santa ingenuidade eu exclamei...

– Ah, que engraçado, o senhor vai envolver o copo do cocktail em tomilho fumado!

...O empregado atrapalhou-se:

– Bom, por acaso hoje não podemos fumar o tomilho porque a máquina está estragada.

Quer dizer, azares acontecem em qualquer restaurante, mas normalmente é costume informar previamente os clientes de que o tomilho fumado que pediram não tem fumo.

Enquanto eu tentava ultrapassar a desilusão com a máquina de fumar estragada, olhava para a minha frente à procura da minha entrada que não aparecia. E só depois de ver toda a gente a comer e o empregado a desaparecer é que ousei perguntar:

– Peço desculpa, mas será que se esqueceram do meu tártaro de novilho?

– Mas só pediram dois...

Em bom rigor, o que os outros pediram não sei, uma vez que o empregado tirou os pedidos um a um. O que sei é que eu lhe pedi um.

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Num instante, o empregado evaporou-se para dentro da cozinha. Enquanto os outros continuavam a deliciar-se com as suas entradas, eu mantinha-me na ignorância, sem saber exactamente o que iria acontecer ao meu tártaro. Passados cinco minutos, surge o empregado, qual D. Sebastião numa noite de nevoeiro, com o meu tártaro na mão.

Agradeço o facto de ter resolvido a falha, mas agradeceria ainda mais se me tivesse dado alguma explicação sobre o assunto.

O tártaro vinha servido com uma gema de ovo de codorniz, cogumelos shimeji, alcaparras, cebola roxa e cebolinho. Era bom, mas a carne era um pouco rija de mais.

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Os pratos principais

A seguir, a minha querida Mulher Mistério, acabada de sair de uma crise de dieta aguda, pediu o tártaro de novilho. Já eu optei pelo Polvo Unido (€19), um tentáculo de polvo grelhado com um delicioso gnocchi de batata doce roxa, uns grelos salteados, alface do mar e redução de vinho do Porto. O polvo estava óptimo, muitíssimo tenrinho e bem temperado e vinha ainda com um aveludado de batata doce roxa que só pecava por ser pouco.

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As sobremesas

Quando chegámos à altura das sobremesas, resolvemos dividir com o resto da mesa. O melhor foi claramente a Miss de Chocolate (€6), uma fantástica mousse servida com salame de chocolate e uns magníficos amendoins de wasabi que cortam na perfeição o excesso de doce.

Depois veio também uma boa tarte de iogurte grego, com lemon curd e framboesas (€6) e uns cones de won ton com creme doce de requeijão (€6) servidos com uma mousse de chocolate branco com pimenta rosa e uma espuma de laranja que estavam longe daquilo que prometiam.

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O serviço

O mínimo que se pode dizer é que é ligeiramente a atirar para o confuso: demorou uma eternidade, baralhou pedidos, não perguntou se queríamos couvert, trouxe cocktails de aperitivo depois de servir o vinho... No meio de todo este caos, nunca foi verdadeiramente antipático, mas nota-se claramente um défice de humildade típico de quem trabalha no restaurante da moda e acha que está no centro do universo.

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As crianças

Não tem menu infantil e é claramente um restaurante de noite. Não é um sítio para levar miúdos.

 

O bom

A mousse de chocolate e os cocktails, especialmente o gimlet

O óptimo

A vista deslumbrante, a decoração original e o ambiente divertido

O péssimo

O serviço

 

Um jantar insólito para si onde quer que esteja,

Ele

 

fotos: the insólito

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial.

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