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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

uma noite na quinta das lágrimas

O Casal Mistério estreia-se hoje como um dos blogs convidados do Lifecooler. Na semana dedicada a Coimbra Património Mundial, publicamos uma crítica à Quinta das Lágrimas. Vale a pena passar lá uma noite, mas já não é o que era. Aqui fica o texto, pela primeira vez e ao vivo, feito a meias pelos dois: Ele e Ela. Esperamos que gostem. 

A opinião D’Ela:

Admito. Sou uma romântica incurável. Adoro uma boa história de amor. Então se for um amor proibido com um final trágico, nem se fala. Não, não estou a falar dos óbvios Romeu e Julieta. Estou a falar da mais bonita história de amor da nossa História: a de Pedro e Inês. Qualquer português que se preze conhece-a, mas para o caso de termos a Angela Merkel a ler-nos para celebrar a vitória de segunda-feira, vou contá-la outra vez. Foi na Quinta das Lágrimas que, no século XIV, o príncipe D. Pedro e uma linda donzela galega, Inês de Castro, viveram o seu amor proibido e foi também aqui que D. Inês chorou pela última vez antes de ter sido assassinada por ordem de D. Afonso IV, pai de Pedro. Diz a lenda que ainda hoje o sangue que então derramou dá cor às pedras da fonte que nasceu das suas lágrimas.

Antes que os homens adormeçam com as minhas sofríveis aulas de História e as senhoras desidratem a chorar com este drama de amor, devo esclarecer que o meu momento José Hermano Saraiva acabou por aqui. Mas a verdade é que mal estacionámos o carro fui direta à Fonte das Lágrimas. E acreditem ou não, as pedras encarnadas estão lá. Não sei se é o som da água da fonte ou o ambiente húmido e triste dos jardins, mas sente-se no ar o cheiro a romance e a tragédia. Fechei os olhos, por momentos senti-me a própria Inês de Castro, até que regressei ao século XXI,  ao som de um “E se me ajudasses com as malas?” .

 

Os jardins

Diga-se que chegar até à fonte pode ser uma aventura. Primeiro foi preciso furar entre os casamentos, os batizados e as camisas de duplo colarinho à Jorge Gabriel que enchem a Quinta das Lágrimas aos fins de semana. Depois tivemos de descobrir o caminho entre placas azuis com letras amarelas que brilham como néons no meio das árvores do jardim.

Se for capaz de sobreviver a este filme de gosto duvidoso, então vai descobrir um dos mais bonitos jardins do País. E é aqui que passo a palavra ao meu querido Marido Mistério, um amante da Natureza que tem um David Attenborough adormecido dentro dele (por que raio os homens são fascinados pela BBC Vida Selvagem e pelo National Geographic?)

A opinião D’Ele:

(Está cheia de graça, hoje, a minha querida Mulher Mistério.) Projetado em meados do século XIX, o jardim é uma espécie de museu natural pensado para reunir exemplares de árvores de todo o Mundo. Algumas são tão raras que não existem em mais nenhum jardim de Portugal. Aqui encontra árvores de África, bambus da China e até os maiores seres vivos da Terra, as Sequóias que podem atingir até 120 metros de altura e 2000 toneladas de peso.

Mesmo em frente da Fonte das Lágrimas existe um magnífico lago com uma incrível vista para o hotel e para a cidade de Coimbra. Ao lado, foi construído um anfiteatro ao ar livre, com bancos corridos de pedra, onde se pode assistir a concertos de jazz e música clássica e ao Festival das Artes, um festival de música único que este ano decorrerá entre 18 e 29 de Julho. Tudo isto enquanto vê os jardins iluminados à sua esquerda, o hotel à sua direita e Coimbra lá ao fundo.

O hotel

Chegados a esta fase da conversa, podemos facilmente concluir que, tirando os casamentos, os batizados e as camisas à Jorge Gabriel, a Quinta das Lágrimas é um hotel perfeito, certo? Mais ou menos. Primeiro, as coisas boas. O edifício antigo foi construído no fim do século XIX depois de um incêndio ter destruído o palácio original. É aqui que se situa a biblioteca forrada a madeira, o restaurante nas arcadas da antiga capela e os quartos da ala “Palácio” onde ficaram hospedados o Duque de Wellington e D. Miguel.

Nesta zona do hotel, o chão de madeira antiga range cada vez que dá um passo e tudo tem o cheiro de um solar do século XIX. Pode beber um copo no honesty bar ou sair para o pátio interior onde sabe bem esperar pela hora do jantar calmamente à frente de um gin tónico ou de um Porto seco. Se preferir uma esplanada com vista para os jardins, tem um problema. Há as mesas do restaurante onde se serve o pequeno-almoço, mas o serviço acaba depois do almoço. Resta-lhe cruzar os dedos e contar com a boa vontade de um empregado que não se importe de lhe trazer uma bebida para ali. Connosco resultou, mas não é garantido.

O verdadeiro drama surge na parte nova do hotel, ou a ala “Spa”, como lhe chamam. Completamente diferente do palácio antigo, aqui a decoração é minimalista, com cores fortes e ângulos retos. É como sair de um hotel de charme e entrar num edifício municipal. O chão – de latão ou de ferro – está suspenso e faz eco quando é pisado, e os corredores têm aquele cheiro a piscina típico da sede dos bombeiros voluntários do seu bairro.

Para ser mais claro, não gostei. Acho que a integração entre antigo e moderno falhou, a quinta perdeu harmonia e os jardins perderam uma parte do ambiente. Na ala “Jardim” do hotel, também dispensava a decoração das paredes de alguns dos quartos. Com desenhos que estão algures entre as paisagens japonesas e as pinturas do meu filho de 8 anos e cores que vão do azul cueca ao lilás, não faz o meu género.

Resta a ala “Palácio”, que continua a ser um edifício maravilhoso com quartos fantásticos, camas antigas e um ambiente entre o castanho das madeiras e o bordeaux dos veludos.

O serviço

Primeiro aviso: este não é um cinco estrelas. Apesar de estar num palácio, com um jardim imponente e um restaurante de topo, é um hotel de charme com quatro estrelas. E é isso que deve esperar. Isso não quer dizer que tenha um serviço desleixado, porque não tem. Mas não tem os detalhes de um hotel de luxo. Os empregados são simpáticos e atenciosos, mas não estão sempre lá.

O restaurante

Com uma vista soberba para os jardins, é um restaurante com uma estrela Michelin. A decoração é clássica e sóbria e o ambiente é elegante e romântico. A cozinha é de “autor”, que é como quem diz do chef Albano Lourenço. A carta varia ao ritmo das quatro estações porque depende do que o mercado local e a horta da quinta têm disponíveis. Vale a pena lá ir, deixar-se levar pelas sugestões do chef e perder-se na imensa oferta da carta de vinhos.

 

A opinião dos dois:

Vá à Quinta das Lágrimas durante o Festival das Artes e durma uma noite nos quartos da ala “Palácio”. Confirme antes se não há casamentos marcados, depois visite o jardim durante o dia (e a Fonte das Lágrimas, claro), jante na esplanada do restaurante Arcadas e ouça um concerto de música clássica enquanto olha para Coimbra à noite. No dia seguinte, venha embora sem passar pela ala nova do hotel.

 

O bom:

O restaurante Arcadas, os quartos do palácio e os jardins

O mau:

A integração entre o palácio e a ala nova do hotel 

O péssimo:

Os casamentos com convidados de camisa à Jorge Gabriel

 

Boas férias,

Casal Mistério

 

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