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Casal Mistério

Casal Mistério

crepes blinis com natas e caviar (ou alguma coisa muito parecida com isso)

30.12.13

 

O caviar dos pobrezinhos

 

Ingredientes:
1 frasco de caviar Tzar
1 pacote de crepes blinis
1 pacote de natas

Já estou a ver o stress no ar: dia 31, passagem de ano em sua casa, é preciso alguma coisa especial para o jantar, não comprou nada e não tem paciência para passar as últimas horas de 2013 emigrada na cozinha. Quer ideias? Nós temos ideias. Meta-se no carro, pegue numa nota de 20 euros e vá até ao supermercado do El Corte Inglès. Vai ver que traz uma boa entrada e ainda umas moedas de troco. Tudo isto graças à mais nova e sofisticada imitação de caviar. Chama-se Tzar, é produzida na Rússia, só com recurso a produtos naturais (marisco, carapau, salmão) e tem autorização para utilizar a designação caviar. Ou seja, é caviar mas não é de esturjão, é bom mas não é um Beluga, é barato mas não tem químicos.

Com dez euros traz um frasco com mais de 100 gramas. O resto serve para comprar uns crepes blinis (aqueles muito pequeninos com a grossura de uma minipanqueca) e um pacote de natas. Mesmo antes de servir, aquece os crepes no forno ou no microondas, junta-lhes as natas batidas por cima e depois o caviar. No fim, ainda lhe sobram as moedas de troco para saltar à meia-noite com os bolsos cheios. Não é o caviar que se come em casa de milionários como Ricardo Salgado, Bill Gates ou José Sócrates, mas sempre é caviar - ou quase.

E já agora, um bom Ano Novo para si, onde quer que esteja,

Ele

furnas do guincho, um restaurante com um peixe fantástico e uma vista maravilhosa

29.12.13

Um jantar com a sogra? Por favor, chamem o INEM. Um jantar com a sogra e com o marido da sogra, que não é o sogro? Meu Deus, podem começar a massagem cardíaca. Um jantar com a sogra e com o marido da sogra, que não é o sogro, no restaurante Beira Mar em Cascais? Apaguei de vez - pode entrar o coveiro. Nesta fase da tragédia, só há uma maneira de me ressuscitarem: a alteração de um destes três factores apocalípticos. E por uma feliz coincidência, isso aconteceu a poucas horas do mergulho no abismo: o Beira-Mar estava fechado até ao dia 21 de Dezembro. E foi assim que, em estado pré-comatoso, entrei nas Furnas do Guincho.

O ambiente

Do meu lado esquerdo, um grupo de 20 turistas homens, fardados com blazer e camisa sem gravata, a beberem vinho com se estivessem a beber água. Do meu lado direito, um casal de turistas, a beberem vinho como se estivessem a beber uma marguerita. Atrás de mim, uma familia de turistas, a beberem água como se estivessem a beber vinho. À minha frente, mar, muito mar. Esta é a parte boa das Furnas do Guincho. Apesar de a média de idades rondar os 60 anos e do alemão ser língua mais falada, há uma esplanada com uma vista soberba sobre o mar. É claro que nesta altura do ano a esplanada não é para usar, mas é para isso que existem janelas. E aqui janelas não faltam. A decoração está ao nível da média de idade dos clientes e do bom gosto de Angela Merkel para se vestir. 

A ementa

O pão é básico, as tostas são grossas e a broa embucha. Não há azeite na mesa, nem patés ou qualquer outra frescura. Aqui é tudo à antiga. E isso nem sempre é bom. Especialmente quando o couvert básico contrasta com a decoração pretensiosa. Mas há sempre umas gambas razoáveis para picar e, no Verão, uns percebes bonzitos.

 

O peixe 

Não vale a pena vir aqui para comer um bife. Este é um restaurante de peixe, bom peixe, óptimo peixe. Especialmente se o pedir ao sal. Neste dia de sacrifício, o marido da sogra comeu uns filetes de cherne com sala russa (quem é que vai a um restaurante de peixe comer filetes de cherne com salada russa?!) e a sogra pediu uma paelha (o que à partida pode parecer um absurdo, mas depois se revelou uma surpresa, com o arroz solto e molhado em azeite). Eu preferi não inventar. E não inventar aqui é pedir um robalo do Guincho ao sal. O peixe estava fresquíssimo e cozinhado no ponto, que é o mesmo que dizer suculento e a dividir-se facilmente em lascas. Falha: o peixe vem apenas com molho de azeite e alho, falta claramente o molho tártaro e o molho holandês, que nem a pedido conseguiram fazer. 

A sobremesa 

Nesta área não pode haver dúvidas. Tem de pedir a mousse de avelã, uma receita caseira tradicional de Cascais, feita há duas gerações pela familia Arouca para os principais restaurantes da região. O segredo está na mistura de um chocolate pouco doce a envolver um nogat maravilhoso de avelã. Imperdível! O serviço Apesar de estarem encantados com a mesa dos turistas de blazer sem gravata, os empregados foram eficientes e simpáticos. É uma vantagem destes restaurantes junto ao Guincho: há sempre mais empregados do que é realmente preciso. E, no caso das Furnas do Guincho, nem tem de pagar o absurdo que paga, por exemplo, no Mar do Inferno ou no Porto de Santa Maria. Continua a ser demasiado caro, mas neste caso esse até foi um problema do marido da sogra. Ninguém lhe mandou pedir a salada russa...

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

bolo do caco hamburgueria gourmet

27.12.13

 

Mesa para dois

 

O ambiente

Imagine um Mini com mesas de jantar lá dentro. Sentir-se-ia confortável? Vai sentir-se. Quando a decoração tem a ver com o espaço, a área é apenas uma questão de perspectiva. E aqui tem de ir preparado para o que vai encontrar. Primeiro, este é um restaurante para almoçar, não é um sítio para jantar - o espaço é minúsculo e as cadeiras não são confortáveis. Depois, este é um restaurante para ir aos pares - se for sozinho vai ficar absorvido pela conversa do lado; se for em grupo arrisca-se a ficar sentado ao colo de uma colega (ou de um colega, o que pode ser ligeiramente mais desagradável, dependendo das perspectivas). Depois, este é um restaurante para marcar mesa - não arrisque porque não vai correr bem.

Se tiver a sua perspectiva acertada nestes pontos, vai gostar. Só precisa de não querer aquilo que este restaurante não é. É como o Mini: é um carro trendy, engraçado, bonito e no qual sabe bem andar - mas não é um carro de luxo, nem um carro para a família. O Bolo do Caco é igual: é um restaurante trendy, engraçado, bonito e no qual sabe bem estar - mas não é um restaurante de topo, nem um restaurante para jantar. A decoração é moderna, o espaço é acolhedor, o ambiente é animado.

Quando nos sentámos, tivemos a sorte de ficar esmagados entre um casal silencioso, mais interessado na nossa conversa do que na deles próprios, e dois amigos empenhados em discutir marcas de artigos desportivos e computadores de última geração. Ou seja, a companhia poderia ter sido pior.

 

 

O serviço

Desde que fui descomposto pelos empregados do English Bar, no Estoril, por ter ousado ir ao restaurante no dia 1 de Janeiro, quando eles estavam estafados da festa na véspera, que dou graças a Deus quando sou bem recebido no dia a seguir ao Natal e ao Ano Novo. E aqui tivemos sorte. No dia 26 de Dezembro, quando metade dos donos dos restaurantes de Lisboa estavam a desintoxicar das filhoses e das rabanadas em excesso, os empregados do Bolo do Caco estavam felizes por estarem abertos. Ou, pelo menos, pareciam. Na quinta-feira, não tínhamos marcado. E, mesmo assim, conseguimos mesa. Com boa vontade e um sorriso - o que, hoje em dia, é raro. O restaurante não tem menu - está tudo escrito a branco nas paredes pretas -, o que acelera logo uma boa parte do serviço. E a comida vem rapidamente e sem erros - o que, hoje em dia, é ainda mais raro. As alterações aos pratos; o "um pouco mais de gelo, se faz favor"; ou o "se não se importa, trazia-me uma Coca-cola enquanto escolhemos" são encarados com naturalidade. Aqui serve-se como deve ser: sem simpatia a mais e sem eficiência a menos. 

 

A ementa

 

Couvert

O pão não é brilhante: está entre o pão de forma Bimbo e o pão de sementes artesanal - é escuro, mas é mole demais; tem côdea, mas é um pouco emburrachada. O azeite vem com um xarope de vinagre balsâmico demasiado espesso e doce. Mas as azeitonas são pequenas, tenras, saborosas e nada ácidas. Resumindo, não é fascinante mas escapa.

 

Os pratos principais

Aqui tudo tem bolo do caco. E quase tudo é elaborado com cuidado. Experimentámos o hambúrguer de salmão e o hambúrguer tártaro. Primeiro, os crus. O tártaro estava bom, mas não é fabuloso. Vem com alcaparras e carne fresca e saborosa, é grande e tem mostarda a acompanhar, mas falta-lhe algum detalhe que o torne especial. E esta é que é a diferença entre um bom restaurante para almoçar, como esta hamburgueria, ou um excelente restaurante para jantar, como o Talho de que falámos há uns dias: os detalhes que surpreendem. A única crítica é em relação às batatas fritas: um pouco grossas demais e moles.

Agora, os cozinhados. O Salmão Burger é a melhor solução para quem passou as últimas 48 horas a comer bacalhau, peru, couves, rabanadas, queijos, mais bacalhau, mais peru e mais tudo. Pelo menos é um prato que finge ser light. Com cebolinho, rúcula e tomate, vem por baixo de um molho tzatziki, de origem grega, à base de iogurte e pepino. É um molho leve e fresco e, juntamente com o cebolinho, ajuda a desenjoar da gordura do salmão. Mas o melhor deste prato - e provavelmente de todo o restaurante - é o acompanhamente: umas chips de batata doce, cortadas à grossura de uma folha de papel, extremamente estaladiças e sem um pingo de gordura a mais. Todos os acompanhamentos são servidos em tachinhos miniatura cinzentos, o que para quem, como eu, já não aguenta a moda das ardósias, representa uma bafurada de ar fresco numa tarde caribenha.

E porque era dia 26 de Dezembro, os doces tiveram de ficar para outro dia - ao almoço, claro.

 

 

Um bom fim-de-semana para si, onde quer que esteja,

 

Ele

natal

23.12.13

 

 

O nosso Natal é uma loucura de almoços e jantares. Começamos a 24 às 13h00 e acabamos dia 25 à meia-noite, tudo isto numa correria de um lado para o outro: casa da mãe, casa da sogra, casa da tia, casa do sogro, carregados de crianças, presentes, vinho e bolo-rei. A azáfama é tal que não vamos conseguir aproximarmo-nos sequer de um computador. E se tentar tocar no Ipad ou no Iphone, corremos o risco de ser olhados de lado por toda a família. Mas depois do bacalhau, do perú, dos sonhos, das rabanadas, e muito mais, vezes quatro (ufa!), voltamos com uns quilos a mais e cheios de novas ideias, boas receitas e mais críticas mistério...

Até dia 26!

 

Feliz Natal!

 

Por Ela

mercy hotel

22.12.13

A ideia era passar uma noite romântica em Lisboa, com direito a um jantar a dois, a um concerto e a uma noite de copos. “No mercy”, sem crianças. Talvez por isso, a nossa escolha tenha sido inspirada: o Mercy Hotel, no Chiado. Como o próprio nome indica, situa-se na rua da Misericórdia, aquela frenética artéria “super in” que liga o Príncipe Real ao Largo Camões.

 

 

 

Optámos por um Quarto Cosy, e o nome não poderia ser mais adequado. O quarto é, de facto, cosy, até demais... Aliás, tudo no hotel é cosy. Da receção ao elevador, do corredor ao bar, até chegarmos ao quarto, tudo é claramente digamos... que aconchegante. Com uma decoração em tons quentes (castanhos, dourados e cinzentos), todo o hotel se apresenta em forma de presente aos hóspedes. Mal entramos no lobby, é impossível não reparar nas gigantescas fitas douradas que percorrem todo o teto da receção quais ondas esvoaçantes.

 

 

 

Mas a cereja no topo do bolo, no que toca a apontamentos dourados, são as portas dos quartos com as ditas fitas com uma enorme laçada ao centro que só apetece desembrulhar. Contive-me porque estávamos acompanhados pelo senhor das malas que, diga-se, não podia ser mais prestável. Depois de nos mostrar todos os cantos e recantos no nosso imenso quarto cosy, fez questão de nos explicar detalhada e demoradamente que, para acedermos à password do Wi-Fi do hotel, teríamos de ligar o comando da TV, pressionar o botão do Menu e pasme-se: carregar na palavra Wi-Fi! Pelo sim, pelo não, explicou-nos o procedimento duas vezes, não fosse o caso de não termos percebido à primeira. O quarto é pequeno mas muito confortável. A casa de banho, toda preta, tem muita pinta. E depois de uma tarde de compras e um duche retemperador, jantámos no fantástico restaurante do hotel, o famoso Umai, do chef Paulo Morais. O jantar – irrepreensível – merece um post à parte.

 

 

O concerto foi excelente e acabámos a noite no bar Park no topo de um parque de estacionamento na calçada do Combro. O regresso ao hotel, por volta das duas da manhã, foi uma bênção... porque isto de dormir em hotéis é muito agradável e romântico mas não há pior do que ter de acordar cedo a tempo do pequeno-almoço. E no Mercy, as portas fecham-se às 10h30! Pelo sim pelo não, decidimos pedir o pequeno-almoço no quarto... que provou ser definitivamente cosy e a cama cinco estrelas, com lençóis e almofadas de luxo. A noite foi de sonho só interrompida por uma pancada tímida a anunciar o room service com o nosso pequeno-almoço que diga-se, era bom mas não espectacular: o café e o leite já vinham misturados (qual galão morno dentro de uma cafeteira) e o sumo de laranja não era natural... mas cumpriu os mínimos.

 

 

Resumindo: bom, simpático, ideal para uma noite bem passada no coração da movida lisboeta...mas não é inesquecível.
Ah! E não se assuste se tropeçar em vários manequins espalhados pelo hotel. Sentados num sofá, em pé, a conversar ou simplesmente a olharem para nós. Fazem parte da decoração e usam peças da última coleção de uma conhecida estilista portuguesa. Uma ideia original mas um tanto ou quanto... creepy.

 

 

 

 

Por Ela

vivó inverno a saber a verão

21.12.13

Percebes

 

 

 

Às 17h11 começou oficialmente o Inverno. E a melhor maneira de comemorar o evento é a relembrar o Verão. Desta vez, não saí de casa para comer fora. Com 16 graus na rua, vesti uma T-shirt e meti-me no carro a caminho do Coolares Market, um óptimo sítio para fazer as últimas compras de Natal. Pouco antes de chegar à Quinta do Pé da Serra, há um largo à esquerda onde costumam estar umas bancas com produtos caseiros. Se chegar antes da hora do almoço e se a maré ajudar, é provável que encontre percebes frescos acabados de apanhar na praia da Adraga. Depois de os conseguir, o resto é fácil. Passe-os bem por água para tirar a areia e ponha uma panela de água a ferver cheia de sal - para um quilo de percebes, pouco menos de meio quilo de sal. Quando a água estiver a ferver, deite os percebes lá para dentro e tape. Mal voltar a levantar fervura, apague o lume. Em menos de cinco minutos está de volta ao Verão e à praia. E tudo isto por 10 euros. Sem precisar de aturar empregados mal dispostos em restaurantes da moda.

 

Um bom Inverno para si, onde quer que esteja,

Ele

bulldog e o tribunal constitucional

20.12.13

A bebida ideal para ouvir juízes

 

 

 

 

Era aquele senhor com voz de elefante e pronúncia de Mota Amaral a entrar pela televisão e eu a sair pela cozinha. Hoje em dia, política sem álcool é como muamba sem gindungo - ou, como diria o Jorge Perestrelo, é como futebol sem golos. Ouvir o Tribunal Constitucional obriga-me a preparar um gin; ouvir o Passos Coelho, dois; o Paulo Portas, três; e quando chega o Seguro, o melhor é beber logo pela garrafa. Mas aquele juiz com uma capacidade de dicção ímpar, uma voz envolvente e uma queixada de fazer inveja ao Mutley fez-me lembrar algo um pouco mais sofisticado - este é um momento para um Bulldog.

- Peguei numa laranja, num limão e numa toranja que tinha acabado de receber no meu cabaz de legumes e frutas da horta e cortei uma fatia comprida da casca de cada um.

- Juntei-os num copo de gin cheio de gelo e misturei um pouco com uma colher torcida.

- Depois deitei um cálice de gin Bulldog e continuei a misturar.

- A seguir deitei uma água tónica Schweppes Premium Pimenta Rosa cuidadosamente através da colher e voltei a mexer.

Depois de tudo isto, bebi. E bebi. E bebi. No fim, parecia que Portugal é que tinha acabado de emprestar 73 mil milhões de euros à Alemanha para esta sair da crise.

 

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

porto tónico

19.12.13

A companhia perfeita para ver o Benfica

 

 

  

Quem é que disse que o Benfica só pode ser visto com uma garrafa de cerveja na frente e um prato de tremoços na boca? Desde que o Jorge Jesus esteja na bancada, em vez de estar em cima do lombo de um polícia, o futebol não tem de ser assim. A suada vitória deste domingo, frente ao poderoso Olhanense, foi assim: três cálices de Quinta do Noval extra seco, uma rodela de limão, uma garrafa de água tónica Thomas Henry e muito gelo. Isto estava dentro do copo. Dentro da taça, um saco de amêndoas com sal. E agora podem soltar o Jesus, que já estamos preparados para tudo.

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

o talho, um dos melhores restaurantes de lisboa

18.12.13

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O ambiente

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena desgraça. Primeiro, o nome: alguém, no século XXI, quer ir a um restaurante onde só se sirvam costeletas grelhadas? Depois, o guarda-roupa: alguém, que viu o Star Trek quando ainda andava de calções e meias até ao joelho, quer ser recebido por um empregado com um intercomunicador no ouvido igual ao do capitão Kirk? Finalmente, a localização: alguém, que não se tenha divorciado há três meses, quer ir jantar a um restaurante que fica exactamente entre o El Corte Inglés e o bar Nocturno 76?

Eu sei que é difícil ultrapassar todos estes preconceitos numa única noite, mas, por favor, tente. E, se não conseguir, tente outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra. Até ser capaz. Primeiro, porque O Talho – apesar do nome desastroso e da tabuleta em neón – não serve costeletas grelhadas. Serve alguma da melhor e mais elaborada carne que se vende em Lisboa. Depois, porque o capitão Kirk é um dos mais simpáticos e eficientes empregados do distrito. E finalmente, porque hoje em dia quase qualquer carro tem alarme – e resiste a duas horas estacionado naquele sítio. Só para o caso de ainda não ter ficado convencido, porque aqui o ambiente é relaxado, sofisticado e com um enorme bom gosto. Do mini-bar de gin onde pode esperar pela sua mesa, à decoração cuidada e despretensiosa, passando pela clientela e pelos detalhes: o corredor para as casas de banho é uma adega com charme e os lavatórios são blocos de pedra rústica. 

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A ementa

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena surpresa. O chef passou um ano a viajar pelo mundo, ficou instalado em casas particulares e aprendeu a cozinhar com as famílias. Isto depois de ter passado por França e pelo Eleven, onde aprendeu o resto. O resultado é uma mistura de genuinidade com sofisticação. Uma mistura de tradição com imaginação. Uma mistura de vintage com moderno. No fundo, uma mistura de Capitão Kirk com Avatar. Quase tudo é óptimo. Algumas coisas são geniais. Muito pouco é vulgar.

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As entradas

No que comemos, só um dos aperitivos falhou: Uma fatia de bacon por cozinhar com vinagre agridoce e beterraba ralada. Foi a primeira e não resultou. Mas foi a única. O segundo aperitivo foi excepcional: um ovo escalfado a baixa temperatura, no ponto ideal, rodeado de farofa de bacon frita e estaladiça, leve e surpreendente que, em vez de uma farinha, parece flocos de neve.

Além de óptimo, o segundo aperitivo serviria como uma fantástica entrada em qualquer restaurante de semi-nouvelle cuisine.

Até as entradas, que poderiam parecer normais, conseguem surpreender. O bloco de foie gras corado em sal é apenas bom, mas o facto de vir acompanhado por um mini-croquete de chocolate e uma mini-madalena sobre doce de laranja faz toda a diferença. É como ter o dr. Spock com a cauda do Avatar. A ceviche de novilho com mousse de batata doce é arrebatadora.

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Os pratos principais

Se ainda conseguir chegar aos pratos principais, por favor, divida. Aqui vale a pena experimentar tudo o que puder. O bife tártaro vem acompanhado com maionese de rábano e um pouco de mostarda montadas uma sobre a outra como se fosse um ovo estrelado rebentado. Ao lado tem um shot de vodka para misturar com a carne. Depois de mexer tudo, enrola o resultado final numa alga japonesa de sushi. É tudo bom. E é todo bom.

A seguir prove a barriga de porco cozinhada durante 18 horas num recipiente de barro em banho maria. Vai depois a tostar a pele e vem acompanhada por uma massa de pevides cozinhada com tinta de choco e molho de berbigão. Do lado direito, há uma espuma de alho; do lado esquerdo, uma espuma de wasabi. Fabuloso! É evidente que não deu para sobremesas.

O serviço

É claro que em qualquer restaurante da Lisboa moderninha, o chef seria um pedante insuportável. Mas não aqui. Ele chama-se Kiko, sorri para os clientes e fala de comida, de viagens e do Mundo com a mesma alegria com que um miúdo finta um colega na escola e marca golo. Ele gosta do que faz e isso nota-se no resultado final. O capitão Kirk controla toda a sala como Ronaldo controlou o jogo de Portugal contra a Suécia. E tem uma vantagem em relação ao avançado do Real Madrid. É tão competente como simpático e modesto. Este é claramente um restaurante onde cozinheiros, chef e empregados gostam de estar. E onde os clientes têm tudo para concordar.

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O bom 

A simpatia de toda a gente

O mau 

A placa de neón à porta

O óptimo 

A comida, em especial o bife tártaro

 

E só para acabar, um abraço para si onde quer que esteja,

Ele

sea me

17.12.13

O serviço 

Faça-me um favor: leia esta frase em voz alta e dê um grito de desespero comigo: “POR QUE RAIO É QUE A MAIORIA DOS EMPREGADOS DE RESTAURANTES EM PORTUGAL TEM DE SER TÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕ FRAQUINHA?! PORQUÊ?! PORQUÊ?! POOOORQUÊEE?!” Ok. Agora está mais relaxado? Eu estou. E depois de ter ido jantar ao Sea Me Chiado, na rua do Loreto, em Lisboa, era tudo o que precisava de fazer.

Chegados mesmo em cima da hora, a mesa reservada não estava pronta. Não há um pedido de desculpas. E não há problema: o restaurante tem um bar onde se consegue esperar. Mas afinal há problema: o restaurante tem um barman que não consegue sorrir.

Resolvido o embaraço inicial – eu sorrio, ele não sorri; eu cumprimento, ele não responde; eu pergunto se tem vinhos a copo, ele entrega-me a lista; eu tento perceber se ele é mudo, ele rosna – ficamos em pé a beber uma flûte de Murganheira bruto e a petiscar qualquer coisa.

Meia hora depois, a mesa está pronta e a nova empregada está a sorrir. Problema ultrapassado? Nem por isso. Depois de pedir três entradas, em vez de um prato principal, chegam duas. E com elas, um novo empregado – de óculos de massa, cabelo rapado e ar de intelectual incompreendido.

- Peço desculpa, mas falta um prato.

- [Sobrolho franzido]

- Falta um prato.

- [Sobrolho franzido novamente] Qual prato?

- Já não me lembro bem. Era uma salada, mas foi a sua colega que ma recomendou.

- Ela já não está.

E é aqui que o meu cérebro entra em tilt: “MAS PORQUÊ EMPREGADOS TÃO MAUS?????????!!!!!!!!!” É assim tão difícil ser competente no mundo da restauração?

A ementa 

A salada, afinal, era de caranguejo real. Que é o mesmo que dizer algo muito parecido com delícias do mar com um bocadinho mais de sal. De resto, vieram umas ostras da Ria Formosa – se já as comeu em Cacela-Velha, no tasco do largo da igreja, não vale a pena passar pela desilusão – e umas vieiras coradas com tártaro de manga e flor de sal – estavam bem cozinhadas, mas o molho era demasiado doce, o que retirava o sabor a mar. Antes de termos ido para a mesa, petiscámos ao balcão uns bombons de atum, mozarella, basílico e sweet chili perfeitamente indiferentes. Para acabar, o doce: a Maria Bolacha tem um nome apetitoso, mas um sabor enjoativo. 

Só mais uma irritação para completar a noite em grande: começámos por pedir rolinhos de robalo recheados com presunto e mozarela, mas não havia – o forno estava com um problema. De facto, pode ter sido um dia azarado, mas é sempre de desconfiar de tantas coincidências.

O ambiente 

O restaurante estava cheio para um dia de semana, o ambiente animado e o barulho ensurdecedor. Se isso não o incomodar, este é o sítio certo. De quinta a sábado, ainda há mais barulho com um DJ residente – no dia em que lá fomos, escapámos. A decoração é moderna, os detalhes estão bem cuidados, mas a confusão é tanta que não dá para prestar atenção a tudo. No meio de tantos azares, nem deu para ir à casa-de-banho ver como era – uma obrigação hoje em dia.

 

Nota final: chamar Chiado à rua do Loreto é como chamar Leblon à favela do Vidigal.

 

E agora resta-me mandar um abraço para si onde quer que esteja,

Ele


 

mercado de campo de ourique

16.12.13

 

Este mercado não é para velhos…nem para crianças

 

Mercado de Campo de Ourique. Sábado, 21h.

 

Estávamos cheios de curiosidade de espreitar a primeira versão portuguesa do mercado de São Miguel em Madrid. Por isso, decidimos arriscar uma visita logo no primeiro fim de semana depois da abertura. Previmos o caos. E confirmou-se o caos. Pior: levámos a tiracolo a nossa filha pré-adolescente que ficou mais ou menos em estado de choque: “oh mãe, isto é que é sair à noite? Nunca vou sair à noite!”. O mercado estava a abarrotar de gente mas apesar da densidade populacional, estava um frio de rachar. E nem a maralha nem os poucos cogumelos espalhados pelo espaço serviram para aquecer o ambiente. As filas eram de tal forma intermináveis que decidimos dividir-nos. Cada um com a sua hercúlea tarefa: ele na charcutaria, a nossa filha nas bebidas e eu no sushi. Sempre com a ladainha de fundo: "Com licença, com licença!", "Esta mesa está ocupada?", " Posso levar esta cadeira?" Quarenta minutos depois reencontrámo-nos para juntar forças para a próxima batalha: encontrar uma mesa vazia. Detalhe: sem mãos para degladiar, já que estávamos carregados com uma pirâmide de petiscos e sushi, e tabuleiros são um luxo por aquelas bandas. Nova separação familiar. Batalha perdida. Valeu-nos um recanto de um balcão ainda por arrendar que a nossa preciosa filha ocupou com unhas e dentes enquanto nos ligava desesperadamente por telemóvel: “Mãe, pai, corram! Estou no terceiro corredor ao pé da fruta, debaixo de um monte de gente.” Nova corrida, com petiscos numa mão, garrafa de vinho e copos altos na outra. Novo reencontro familiar. Lá petiscámos em pé, esganados de fome e estoirados qual soldados nas trincheiras. Estava tudo ótimo mas o nosso pensamento era só um: “fugir dali o mais rapidamente possível!”

 

O Bom:

 - o conceito de vaguear pelo mercado e petiscar aqui e ali é divertido, sobretudo para a faixa etária dos 20, que não se importa nada de estar horas em pé. E é um ótimo ponto de partida para uma noite de copos

- todo o espaço do mercado ficou muito giro depois de remodelado

- a decoração das tasquinhas/bancas de petiscos está engraçada

- a oferta é diversificada: charcutaria, marisco, sushi, hambúrgueres, crepes, etc., e boa.

 

O Mau e o Péssimo:

- há vinte mesas para centenas de pessoas

- petiscar aqui e ali é muito giro mas é escusado as bebidas serem também à parte

- as filas intermináveis

- a ausência de tabuleiros

- o frio de rachar

 

Por Ela

 

decadente, uma experiência inesquecível

15.12.13

 

 

Mesa para seis pessoas, restaurante Decadente, Lisboa

 

O serviço

- Olhe, desculpe. Esqueceu-se do meu copo. 

- Hmm... É que... Pois... Não sei se temos copos de vinho tinto lavados... 

- E então?...

- pois... Hmm... Deixe-me ver se lhe arranjo um

[mas o homem está à procura na sala?] 

[cinco minutos depois]

- querem fazer os pedidos?

-eu queria mesmo era um copo.

- é que estão a secar.

- mas estão vários virados para baixo ali no balcão?

- exacto, estão a secar. 

- Mmmaaas....

- Deixe-me só tirar o pedido que já o trago.

[outros cinco minutos depois]

- está aqui o seu copo. Quer que lhe sirva vinho?

- se faz favor.

- ah, parece que a garrafa acabou. Vão querer outra?

O nome do restaurante Decadente só pode ser uma homenagem a este empregado de mesa.

 

 

panorama na estrada do guincho, o restaurante para quem tem o nariz entupido

14.12.13

Domingo à noite. Mesa para cinco pessoas. Restaurante remodelado, totalmente às moscas, exceção feita a um “pato bravo” com mais de 100 kg que via ruidosamente um jogo de futebol na televisão enquanto a mulher babava para cima do sofá num sono assustadoramente profundo. De resto, um deserto de mesas e cadeiras e o mar como pano de fundo com um cheiro… nauseabundo. Sim, isso mesmo que acabou de ler: um cheiro a esgoto indescritível. Valeu-me uma valente constipação para conseguir suportar o odor que os solícitos empregados garantiam ter origem nas marés. Há anos que frequento os restaurantes da zona, nunca tal cheiro me tinha passado pelas narinas. Ainda arrisquei perguntar se a culpa não seria das obras de remodelação do restaurante. O coro ensaiado dos empregados e do gerente, “Nãaaoooo! Que ideia!”, esclareceu-me.

O jantar não surpreendeu. Um excelente robalo ao sal, acompanhamentos pagos à parte, como esparregado e arroz de tomate, estupidamente caros, e Santini e a obrigatória mousse de avelã, de sobremesa. Bom mas igual a sempre. Tal como o serviço. Os mesmos empregados da gerência anterior: eficientes, simpáticos, calorosos e com uma excelente memória. Tratam-nos pelo nome e recebem-nos como se não tivessem passado anos… Sim, não ia ao Panorama há alguns anos e sinceramente, não sei se volto tão cedo. A simpatia dos empregados não salvou o meu já debilitado olfato.

O bom – o serviço

O mau – o preço dos acompanhamentos

O péssimo - o cheiro a esgoto durante todo o jantar

 

Um ótimo jantar para si,

Ela

prego gourmet

13.12.13

 

Prego Gourmet

 

Começam os problemas

 

Só uma pergunta: porque é que no início era tudo óptimo e agora já apanhei várias vezes o aipo acastanhado nas pontas? Só outra pergunta: porque é que no início havia cartões de fidelização e agora, há pelo menos duas semanas, que estão “à espera de uns novos cartões digitais que estão mesmo, mesmo, mesmo a chegar”? Deixem lá o digital, o povo quer é o aipo fresco e a refeição oferecida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

óptimo ou ótimo?

12.12.13

 

 

Casal em reta (ou recta) de colisão

 

Depois de um intenso debate sobre a adoção (ou adopção) do acordo ortográfico no nosso blog, decidimo-nos, como sempre, pela liberdade criativa.

 

Por isso, não se admirem se os textos dela (moderna, liberal, adepta da mudança) cumprirem as regras do acordo ortográfico, enquanto os textos assinados por ele (conservador, retrógado e velho do Restelo) continuar com a ortografia arcaica.

 

Por Ela 

 

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