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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

infiltrámo-nos nos comícios do PS e PSD para fazer a crítica gastronómica das europeias

Já não há carne assada, mas há bacalhau seco, caldo verde sem chouriço e vinho à temperatura do Mar Morto. Enquanto os militantes ouviam os líderes, fomos comer aos eventos de campanha do PS e PSD. Ela jantou em Almeirim, Ele almoçou no Dafundo. Sempre de forma anónima e pagando a conta. Mas sem fatura – porque isso nos partidos não existe. Um desafio da revista Sábado a que não conseguimos resistir.

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Não tenho sorte nenhuma na vida. Decidimos sortear quem ia para o PS e para o PSD. Resultado: PSD para o meu querido Marido Mistério no Dafundo, PS para mim… em Almeirim. Tinha de lá estar às 20h de quarta-feira. Consegui chegar 15 minutos atrasada, a rogar pragas ao trânsito caótico para sair de Lisboa. Felizmente não foi difícil encontrar o restaurante Moinho de Vento. Foi só seguir o fluxo de gente e de bandeiras que se deslocavam para as traseiras do restaurante. Deparei-me com uma fila à porta e temi perder a entrada triunfal das estrelas da noite. Mas a fila andou rápido graças a um senhor de barba hipster e T-shirt encarnada do PS que distribuía bilhetes à porta. Decidi assumir que era uma apoiante que veio de Lisboa para ver e ouvir António Costa e Pedro Marques ao vivo e a cores. Distribuí sorrisos e “boas noites” enquanto estava na fila para disfarçar o meu nervosismo. A Sábado tinha confirmado a minha presença com um nome que obviamente não é o meu. E eis que a fila avança e fico frente ao senhor da porta. Abro um enorme sorriso, na esperança de que me desse um dos bilhetes que tinha na mão:

- Boa noite!

- Boa noite! Bilhete?

Gelei.

- Veio de onde? Benavente? Santarém? Chamusca?

- Lisboa. Acho que tenho o meu nome na lista – arrisquei enquanto apontava para uma atarefada senhora encostada a um balcão com um molho de bilhetes, uma folha de excel e lápis em punho. Arranquei direta para o balcão e fui salva pela dita senhora, que me recebeu com um sorriso reconfortante. Pediu-me o nome, encontrou logo e não resistiu:

- Veio de Lisboa?

- Vim, sim senhora.

- Assim é que é! Muito bem! São 10 euros.

Paguei, agarrei-me ao meu bilhete e escapuli-me para dentro da sala de jantar que estava quase cheia. Lá consegui arranjar um lugar numa das pontas de uma mesa discreta. E, com a graça do bom Deus, tínhamos direito a cadeiras, e não bancos corridos, porque a noite previa-se longa.

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O ambiente

Sentei-me às 20h30 em ponto. Olhei em volta, sorri timidamente para os meus vizinhos do lado que me devolveram o sorriso. Percebi que escolhi um lugar perto de um casal respeitável da terra, porque foram cumprimentados com alguma deferência por algumas pessoas que fizeram questão de se deslocar à nossa mesa. Além disso, tratavam os caciques locais pelo nome próprio. Estava bem entregue.

Em cima da mesa, tínhamos uma garrafa de litro e meio de água, um jarro de sumo de laranja pouco natural, uma garrafa de vinho tinto Lezíria, quatro manteigas de pacote e uma taça de azeitonas. E, claro, bandeiras do PS.

Agarrei-me logo a uma e comecei a conversar com os meus vizinhos do lado que eram uma simpatia. Explicaram-me que o pão que nos serviram era uma tentativa de imitação das caralhotas, o pão típico da terra. Mas, segundo os meus novos amigos, não tinha nada a ver com o original. Eu gostei do pão, era saboroso e fresco, mas não era do outro mundo.

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Os meus novos amigos contaram-me também, com orgulho, que o vinho que estávamos a beber se vende por ali a cerca de €1,50 e que “era bem melhor do que muitos que se vendem nos supermercados a €3 ou €4”. Nisso, sou obrigada a discordar: o vinho tinto era uma pomada de fugir. Temi pelo resto da noite, até que avistei ao longe uma garrafa de vinho branco, também Lezíria. Renasceu em mim a esperança. Não descansei enquanto não tomei posse daquela garrafa. E a minha intuição estava certa: o branco era bem melhor do que o tinto.

Às 20h45, começa uma enorme agitação, a revolucionária música Bella Ciao toca a um nível tal que temi pela sobrevivência do sistema de som e uma voz feminina empolgada anuncia a chegada das estrelas da noite.

- Vamos erguer as nossas bandeiras! Batam palmas, muitas palmas, para receber o homem que devolveu a esperança aos portugueses!

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Loucura na sala. António Costa chega com Pedro Marques, dois ministros e vários dirigentes locais. Sobem ao palco. Entra a mítica banda sonora de Vangelis. Almeirim de pé. É a comoção geral.

O presidente da câmara abre as hostilidades e garante que a vitória está no papo. No meu papo é que só estavam umas míseras azeitonas e um único pedaço de pão porque, apesar de estar em trabalho, nunca me esqueço que estou de dieta. Ao meu lado, a mesa arranhava os pacotes de manteiga com as facas de peixe porque não havia nem facas de manteiga nem de sobremesa.

Às 21h18, mais um momento Bella Ciao, bandeiras no ar, é a vez de Pedro Marques. Discursa uns 17 penosos minutos até desaparecerem todas as azeitonas da mesa.

Ao fim de uma hora e meia, o jantar-comício do PS estava transformado num comício sem jantar. E os apoiantes querem-se fortes e com energia. Por isso, quando a Bella Ciao voltou a fazer-se ouvir, no fim do discurso do cabeça de lista, contavam-se já muito poucas bandeiras no ar.

Às 21h38, António Costa sobe ao palco e promete ser curto “porque estamos todos ansiosos pelo momento do caldo verde”. Aplausos e lágrimas de alegria das almas esfomeadas presentes (ok, as lágrimas foram só minhas). O discurso inflamado acabou às 21h52. Pronto, finalmente pode vir o jantar. Só que não. Em vez de se sentarem à mesa, os noivos (peço desculpa, os líderes) foram à segunda sala cumprimentar as pessoas que não tiveram a sorte de os ver ao vivo e a cores.

Às 22h06, nada de jantar. Militante sofre. Às 22h11, o único aperitivo servido era Vangelis em loop.

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A sopa

Finalmente, às 22h13, duas horas e 13 minutos depois da hora marcada, dois empregados com as taças de caldo verde são recebidos com palmas. Por esta altura, já tinha desgraçado a minha dieta – tive de comer um pedaço de pão – alimento que não entrava na minha boca há mais de um mês. Estava desesperada de fome, tinha comido sozinha duas taças de azeitonas, e tive direito a duas porque pedi ao simpático empregado um reforço. Os empregados, recebidos como heróis, sentiam-se mais populares do que o próprio António Costa por aquelas bandas. Só que as taças de caldo verde não chegavam para uma mesa. Os pobres e incansáveis funcionários tinham de sair a correr para reabastecer. 

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Às 22h19, serviram-me finalmente o caldo verde no prato de sopa que já chorava de solidão à minha frente. Estava quente, sim senhora, mas nem uma rodela de chouriço para contar a história. A verdade é que a sopa tinha muita batata, não tinha chouriço mas não estava má. É certo que a fome era tão negra que posso ter sido atraiçoada pelas minhas desesperadas papilas gustativas. Às 22h43 ainda tinha o prato de sopa vazio à minha frente e continuavam a vir da cozinha taças e taças de caldo verde. Até que, às 22h50, vislumbrei o bacalhau à Brás ao longe, amontoado em duas travessas gigantes, para logo desaparecerem da minha vista, qual miragem no deserto. Falso alarme. A esta hora, a nossa garrafa de vinho branco, sedenta por um frappé, já estava à temperatura ambiente: para lá dos 27º C.

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O bacalhau

Faltava um minuto para as 23h quando me apresentaram uma travessa com o bacalhau à Brás acompanhado de uma salada de tomate e cebola. Mas só serviram o lado direito da mesa, por isso, o lado esquerdo ficou a olhar para os nossos pratos. Felizmente, os meus novos amigos insistiram comigo para ir comendo “antes que fique frio”. Tarde demais. Já estava frio e seco.

Às 23h09, o senhor que estava à minha frente continuava de prato vazio. Nisto, aparece o empregado vindo da cozinha com a travessa cheia.

- Com licença, camarada, aqui tem!

Pelo menos estava mais morno do que o meu que já roçava o gelado. Não há milagres: o jantar estava marcado para as 20h, o bacalhau só chegou aos pratos três horas depois. Mas o tomate era bom e estava bem temperado.

Às 23h12, nova agitação na sala, António Costa desiste de esperar pela sobremesa. Tenta sair de forma discreta mas é denunciado pelas palmas dos militantes que se levantam para o ovacionar. Será que ele sabia o que nos esperava?

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O pudim

Às 23h20, entrei em desespero e meti uma cunha ao empregado a implorar para me dar prioridade porque ainda tinha de ir para Lisboa. Dez minutos depois, trouxe um pudim só para mim. Fiquei-lhe eternamente grata. Não consegui identificar o que era: parecia um flan com molho de caramelo. Será? O empregado, que por esta altura já era o meu melhor amigo, encolheu os ombros:

– Sei lá, é pudim.

De facto, até aí cheguei eu. Mas não consegui decifrar o sabor. Era instantâneo, era óbvio, tentei virá-lo ao contrário e não caiu. Era manifestamente de pacote e muito mau. Comi duas ou três colheres para não fazer a desfeita ao simpático empregado que me tratou tão bem. Olhei em volta, pedi desculpa, disse que infelizmente tinha de ir porque a viagem ainda era longa. Despedi-me dos meus novos amigos e, quando dei por mim, estava tudo a levantar-se também. A debandada foi geral, pouca gente terá ficado para o café. Ou será que quiseram fugir ao pudim?

 

Leia ainda:

A experiência Dele num almoço-comício do PSD no Dafundo

 

Agora vou ali comer qualquer coisinha que estou esganada de fome,

Ela