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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

o pior bife que já comi na vida está na portugália do chiado

O meu pai costumava contar uma história que nunca soube se era verdade. Um dia, entrou na Cervejaria Portugália, em Lisboa, e pediu um bife com molho à Portugália. Entusiasmado, o empregado sossegou-o:

– Está com sorte, hoje foi dia de fazer o molho.

Eu sempre desconfiei da veracidade da conversa e passei anos a entregar-me nos braços de um bife que se autoproclamava como "o bife mais famoso de Portugal e reconhecido nos quatro cantos do mundo". Confesso que nunca vi motivos para tanto entusiasmo, mas também nunca tive uma experiência traumatizante nos vários restaurantes da Portugália que já visitei. Até à semana passada.

Faminto e gelado, corri à hora do almoço para o balcão da Portugália, nos Armazéns do Chiado, em busca de um bife suculento e saboroso. Já não pedia "um sabor inconfundível e uma maciez inimitável", como é prometido no site do restaurante. A mim bastava-me um bife tenrinho e mal passado. E já agora, se também fosse possível, quente.

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O ambiente

Cheguei pouco depois das 13h20 para encontrar um mini-restaurante cheio, com um serviço self-service despachado e um intenso cheiro a comida. Não era propriamente um aroma agradável, mas antes um resistente odor que misturava vestígios de alho salteado com o refogado típico de uma sopa que passou mais de uma hora ao lume. Não sei se ali havia sopa, mas o cheiro era assim.

Se fosse um cheiro exclusivo da cozinha, não haveria problema, mas infelizmente espalhava-se por todo o restaurante, ameaçando as camisolas dos clientes com uma longa e penosa contaminação. Depois de ficarmos uns minutos debaixo deste odor, parece que andamos o resto da tarde com um bife da Portugália escondido no bolso. 

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O serviço 

Quanto mais perto do balcão, mais intenso o cheiro. E, para minha infelicidade, ao chegar encontrei uma fila que dava a curva, começando a serpentear. À medida que ia contando as 11 pessoas pacientemente à espera, na fila, para encomendarem o seu bife à Portugália, o aroma ia cuidadosamente entranhando-se na minha roupa.

Dez minutos depois, consegui pedir na caixa. Três minutos mais tarde, chegava o meu bife da vazia só com esparregado: sim, Ela também me impõe uma dieta forçada.

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O bife 

Está a ver este bife reluzente e brilhante da fotografia aqui em cima? Exactamente, uma das fotos que é apresentada no site da Portugália... Está a ver esta carninha suculenta e apetitosa? Então esqueça tudo isso.

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Eu pedi um bife da vazia mal passado com molho à Portugália. O que me foi entregue para as mãos foi um bife com meio centímetro de altura, baço e seco no exterior. A cor da carne era de um castanho gasto que se assemelhava ao tom das cortinas de casa da minha bisavó. E não tinha qualquer tipo de brilho.

Depois de cortar o bife, percebi que estava muitíssimo bem passado, como se já tivesse sido cozinhado previamente e levado apenas uma requentadela antes de ser servido (o que aliás justificaria os rápidos 3 minutos de espera entre o pedido e o prato pronto).

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Além de dura e seca (quase se partia em densos flocos), a carne estava morna, o que anula qualquer hipótese de ter sido acabada de cozinhar. O molho que a acompanhava tinha um excesso de sal e um desequilíbrio de sabores que o aproximava mais de um caldo Knorr mal dissolvido do que de um molho de bife. Na verdade, o molho consegue ser excessivamente salgado em algumas partes e extremamente insosso noutras, como se os ingredientes se recusassem a misturar-se.

Perante o desalento com a carne, atirei-me ao esparregado. E, aí tive uma surpresa: está a ver a consistência cremosa de um esparregado? Este tinha a cremosidade de um puré de batata e a leveza de uma argamassa. No meio, estavam escondidos uns indecifráveis grumos que, a uma primeira dentada, pareciam os nacos de miolo de pão de uma açorda, mas, à segunda e terceira dentadas se percebia serem pequenas bolas de esparregado mais frio que não tiveram tempo de aquecer o suficiente para se espalharem pelo resto.

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Para não destoar do bife, também o esparregado vinha morno e com uma espécie de uma película que se havia criado no topo e que só era rebentada depois de se espetar o garfo até ao fim. Depois de retirar uma garfada, o esparregado mantinha-se firme e sólido como uma falésia do Algarve.

Ora bem, eu nunca tive a veleidade de ver servido no meu prato o bife alto e suculento que é apresentado no site do restaurante. Nem o molho cremoso e brilhante. Ou o esparregado reluzente. Mas, pelo menos, um bife quente e mal passado já não era mau.

 

O bom

A água – estava engarrafada, transparente e sem alterações aparentes

O mau

O esparregado seco, morno e com grumos

O péssimo

O bife seco, duro, morno e bem passado

 

Um óptimo bife para si onde quer que a Portugália esteja,

Ele

 

fotos: portugália; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial. 
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Portugália Balcão Chiado

Armazéns do Chiado

Rua do Carmo, 2, Lisboa

Todos os dias, das 10h às 23h

Tel: 210 003 605

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