o prato divinal que não pode perder por nada deste mundo se estiver no algarve

    Todos os anos, no Verão, eu faço o meu sacrifício anual. Há quem vá a pé a Santiago de Compostela, há quem corra uma maratona, há quem convide a sogra para jantar – eu vou ao Ideal em Cabanas de Tavira. Canso-me menos do que a correr a maratona, mas desgasto-me mais.

    20150717_223154 (1).jpg

     

    O serviço

    Aqui estamos no Algarve dos anos 80. As esplanadas são tapadas, as cadeiras são desconfortáveis e os empregados discutem entre si como se estivessem em casa, a ver o Sporting-Benfica na televisão. Gritam, ofendem-se, gesticulam. E se algum cliente ousar fazer um pedido que não lhes agrade, o melhor é esperar pelo pior.

    Então o que é que me pode levar até aqui – além, claro, do enorme espírito de sacrifício que me caracteriza? A deliciosa sopa do mar, servida dentro de um típico pão algarvio (€8,50).

    A táctica é sempre a mesma: quando chego, vou cumprimentar a dona do restaurante como se nos conhecêssemos há anos. A senhora fica meio baralhada, mas não tem coragem de perguntar “Eu conheço-o de algum lado?”. A única alternativa é sorrir de volta perante o meu cumprimento de velho amigo. E se conseguir o sorriso, metade da minha missão está cumprida. Falta apenas a outra metade. O marido. Que caminha furiosamente por entre as mesas, repreendendo os empregados e alguns clientes. A senhora explicou que este ano ele está mais stressado do que é costume, mas eu desconfio que o senhor ande, há anos, a bater consecutivamente o seu record pessoal. 

    20150717_223219 (1).jpg

    A ementa

    Se conseguir sobreviver a isto (e aos empregados que se empenham especialmente em tentar copiar os patrões), ganhou o seu jantar. E esse jantar resume-se a um prato. Divinal. Único. Irrepetível. Surpreendente.

    Trata-se de uma sopa do mar servida dentro de um pão tradicional do Algarve. O pão é cortado por cima e uma boa parte do miolo é retirada de dentro para se conseguir colocar uma fantástica sopa de peixe e marisco. E não estamos evidentemente a falar daquelas habituais sopas de peixe feitas com os restos dos pratos da véspera desfiados dentro de um caldo a saber a Knorr. Nada disso. Aqui o líquido é uma deliciosa calda de tomate com os sabores e os aromas bem equilibrados e discretos. Depois leva uns fantásticos cubos de peixe fresco e suculento misturados com gambas grandes, amêijoas saborosas e conquilhas quando é a altura delas (nós tivemos azar, porque fomos em época de defeso). Para acabar, é colocado um raminho de hortelã que lhe dá um toque especial.

    Esta fantástica sopa – que tem de ser encomendada de véspera pelo telefone 281370232, senão não há – é servida como uma entrada. Mas como eu começo por saborear o líquido e depois rapo os restos de miolo que estão junto à côdea, ainda embebidos na sopa, como se fossem uma açorda, peço-a como prato principal. Também porque não sou grande fã dos palitos de atum fritos e grandes demais nem do polvo de tomatada que tem um molho muito forte para o meu gosto.

    Por isso, opto por pedir as óptimas amêijoas à Bulhão Pato (€11,50) de entrada – grandes, saborosas e com um molho mesmo no ponto – e só depois a sopa do mar. Se houver conquilhas, também vale a pena pedir. E os jaquinzinhos ou as petingas fritas com arroz de tomate malandrinho são uma perdição.

    20150717_223108 (1).jpg

    A sobremesa

    Ir ao Algarve e não comer uma tarte mista (€2,80) é como ir ao Estádio da Luz e não ver a Águia Vitória (atenção: a pobre águia não tem qualquer relação familiar com o Rui Vitória). E o que é essa maravilha? É uma tarte que junta os três frutos típicos do Algarve: amêndoa, figo e alfarroba, que por acaso são também os meus preferidos. Há quem não se canse de elogiar o doce de vinagre, mas eu acho-o apenas um doce de ovos doce demais. 

    Captura de ecrã 2015-08-11, às 10.54.24.jpg

    O ambiente

    É o ambiente de um restaurante típico, com um espaço interior e uma esplanada coberta. Fica numa rua estreita e não tem vista. O único argumento para vir aqui é mesmo a divinal sopa do mar.

     

    O bom

    A tarte de figo, alfarroba e amêndoa

    O mau

    O serviço e o espaço

    O óptimo

    A sopa do mar dentro do pão algarvio

     

    Umas boas férias para si onde quer que esteja,

    Ele

     

    fotos: casal mistério; google

     

    14 thoughts on “o prato divinal que não pode perder por nada deste mundo se estiver no algarve

    1. Mau serviço no “Ideal”? Discussão entre empregados? Há cerca de 10 anos que é um dos restaurantes a que vou sempre que estou pelo Algarve e nunca vi nem mau serviço, nem empregados a discutirem (até porque não são muitos resumindo-se a 4 se incluirmos o casal dono do restaurante). A comida é muito boa e sempre foram extremamente simpáticos e eficientes mesmo nos dias mais complicados com mais clientes.

    2. Infelizmente concordo com a parte do serviço. O Sr. Manuel este ano estava de fugir. Vale a sopa e a simpatia da dona. O doce de vinagre e as farófias são divinais. Um restaurante a experimentar, mas com paciência…

    3. Sem duvida o melhor restaurante! A minha eleição quando estou de férias no Algarve!
      E muitos outros pratos (premiados ou não!) ficaram por falar…
      Mas discordo totalmente do que disse do atendimento! Mal encarados? Conheço o restaurante há mais de 35 anos e não o revejo no mau serviço que tanto refere.
      Deixo aqui o meu testemunho e um cumprimento especial à família que o gere, cada um com a sua personalidade muito própria. Conseguem ao fim destes anos manter um restaurante de excelente e reconhecida qualidade, que faz com que as várias gerações regressem.

    4. Não acho mesmo que tenha mau serviço! Claro está que em Agosto e com todo o turista armado em carapau de corrida a querer ser servido rápido para poder voltar para a praia ou piscina nem todos podem ser servidos com a calma e simpatia que querem! Experimente ir fora da época alta e vai ter uma surpresa agradável. É o meu restaurante de eleição nunca fui mal atendida…

    5. Concordo com o Alexandre Abreu, nunca lá vi esse tipo de mau ambiente, pelo contrário, sendo que no meu caso é restaurante que frequento há vinte e tal anos. Desde miúda passei férias em cabanas e sempre se comeu muito bem no Ideal. Recomendo muito os pastéis de polvo e as farófias também!

    6. Mau feitio também não conheço no Ideal, mas também nunca lá estive no pico da loucura de 15 de Julho a 15 de Agosto…
      Quanto à comida, acrescento os filetes de polvo e de pescada. E as farófias, que são muito boas.
      Finalmente, que se mantenha nos anos 80 e com a esplanada tapada durante muitos e muitos bons anos. Estou tão farta da homogeneidade dos restaurantes modernos e lindinhos… e todos iguais.

    7. A partir de hoje tenho um problema para resolver! Passo a explicar. Provávelmente há em Cabanas de Tavira mais do que um restaurante com o nome de “Ideal”, pois se falarmos do Restaurante Ideal, da D.Graça, D.Lurdes, Sr. Fernando e Sr. Manuel, que frequento desde 1980, só pode haver uma frase: recomenda-se!………vivamente, tanto pela qualidade como pela amizade. Lembro que há muito mais para além da sopa do mar! Com o devido respeito, não compreendo alguns comentários menos positivos, profundamente injustos!

    8. Há 15 anos que lá vou todos os Verões e com bastante frequência, o único com mau feitio é o patrão. Sobre o espaço é verdade mas tudo compensado pela maravilhosa sopa do mar e os pasteis de polvo ou jaquinzinhos com arroz de tomate!

    9. Adoro como prato principal os filetes de linguado fritos com amêndoa. Já não vou há uns 5 anos mas lembro-me de ficar deliciado com o linguado… Mas sim, a sopa é de outro mundo!

    10. Mau serviço no Ideal???Empregados antipáticos???
      Vou a este restaurante há mais de 30 anos e discordo por completo.. um dos meus restaurantes preferidos…
      Mas se calhar é melhor não irem…Anda muito cheio e acaba tudo …

    11. Querido Casal Mistério,

      Já fiz 2 incursões a este restaurante e nenhuma correu bem. A primeira, estava eu grávida de 35 semanas, em pleno mês de Julho, sem conseguir que me atendessem o telefone decidimos lá ir cedinho para jantar, passava pouco das 19h e a casa já estava cheia, mesmo sendo apenas 2 a única solução que nos deram foi fazer uma reserva para dali a 15 dias para o almoço.. A segunda tentativa foi este ano, novamente mês de Julho, desta vez com uma bebe de 11 meses e com reserva feita para almoço, a casa estava cheia mas a nossa mesa estava lá à espera com espaço para a cadeirinha. Até aqui tudo bem, nem mesmo a falta de empatia dos funcionários iria atrapalhar a refeição… Pelo menos era o que achava-mos até pedirmos 2 sopas do Mar e nos perguntarem se tínhamos reserva (?!), algo que até ali ninguém nos tinha dito. Conclusão, não havia sopa do mar para quem não reservou a dita, nos pegamos na bebe e viemos embora! Um cliente quando vai pela primeira vez a um restaurante não tem de saber todas as regras da casa, e nos claramente não sabíamos, embora tenha feito a reserva de mesa pelo telefone nada nos foi indicado quanto à refeição. A sopa pode ser a oitava maravilha do mundo, mas nunca mais irei a este restaurante!

    12. Os pasteis de polvo também são bons!!! O problema realmente é o serviço! E quando estive lá tive de marcar com cerca de 4 dias de antcedência.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *