o que é que faz quando um cozinheiro o recebe com um ar contrariado?

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    Mal entrei no Stash, o restaurante de sanduíches do chef Pedro Lemos, no Porto, a primeira coisa que vi foram dois olhos a revirarem-se num movimento circular que podia indicar uma de duas coisas: ou um manifesto mal-estar associado a um estado de pré-desmaio, ou um manifesto mal-estar associado à nossa presença. Como em vez de desmaiar o cozinheiro suspirou, presumo que o revirar de olhos estivesse associado à nossa presença.

    De facto, éramos seis bocas cheias de fome. De facto, chegámos ao Stash – The Sandwich Room para almoçar já perto das 16h. Mas, de facto, só ousámos cometer essa imprudência porque, à porta, diz que a cozinha do restaurante funciona até às 17h e pensámos que simpáticas recepções como esta só teriam lugar a partir das 16h45.

     

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    O ambiente

    Depois do olhar fulminante de boas-vindas, fomos recebidos à porta por um outro empregado muito simpático, rápido e eficiente. Foi ele que nos levou até uma das poucas mesas do restaurante.

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    O Stash é pequeno, meio escuro e acolhedor, muito ao estilo dos tradicionais pubs ingleses. De um lado, há mesas fixas com cadeiras fixas que só sentam grupos de quatro pessoas; do outro, há um grande banco corrido, encostado à parede, à frente do qual estão uns bancos sem encosto. É claro que as crianças ocuparam os bancos sem encosto e nós os lugares junto à parede, que esta provecta idade já não aguenta uma refeição inteira sem apoio para as cruzes.

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    A ementa

    Sentados e instalados, importa agora falar do que nos trouxe até aqui: as famosas sanduíches feitas com poucos ingredientes e ainda menos invenções, e que se orgulham de privilegiar apenas produtos de qualidade. O autor da ementa e dono do restaurante é o chef Pedro Lemos, responsável pelo restaurante com o seu nome que entrou no final de 2014 para a lista das estrelas Michelin.

    Aqui não há couverts nem frescuras dessas. O Stash é assumidamente um restaurante de sanduíches – sem pretensões. 

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    As crianças optaram pelo Stash Burger (€6,50), um hambúrguer alto e consistente, servido com um bom queijo roquefort num habitual e pouco surpreendente pão de hambúrguer. A carne era boa e saborosa, mas o hambúrguer estava passado demais para o meu gosto, o que o tornava mais seco do que se poderia imaginar pela apetitosa cobertura de roquefort. No entanto, os mais jovens representantes da Família Mistério aprovaram o prato sem hesitações.

    Eu escolhi a tão famosa sanduíche de sapateira (€8). Feita com recheio de sapateira e caranguejo panado, vem servida em pão de molde que é o mesmo que dizer pão de forma. O pão vem quente e bem tostado, o que lhe dá claramente um toque especial, o caranguejo vem estaladiço e bem panado, o que o torna muito agradável, mas o recheio de sapateira é muitíssimo condimentado, o que contamina todo o prato. Para mim, um bom recheio de sapateira sabe a sapateira: tem a quantidade de sal que se sente na água do mar e a quantidade de condimentos que não abafa o sabor original do marisco. E não foi isso que aconteceu com esta minha sanduíche.

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    Mais uma vez, e por muito que isso me custe reconhecer em público, quem acertou em cheio no seu pedido foi a minha querida Mulher Mistério. A sanduíche de bife marmoreado (€7) é simplesmente deslumbrante. A carne é grelhada apenas com cristais de sal, pimenta preta e azeite biológico – a simplicidade que faltava ao recheio de sapateira – e é colocada dentro de um pão de centeio em finíssimas e mal passadas tiras. Além de alto e muitíssimo saboroso, o bife quase se desfaz na boca.

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    Para acompanhar, pedimos as batatas fritas Stash (€1,80). Fininhas, estaladiças e bem fritas, vêm temperadas com alho e alecrim. Além de o alecrim lhe dar um sabor magnífico, têm uma característica cada vez mais rara nos dias que correm: não vêm queimadas e são feitas com óleo novo, o que lhe dá este tom claro e saudável.

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    Para cumprir a quota de dieta a que Ela tem direito em cada refeição, pedimos também a fantástica salada do dia, feita com ingredientes biológicos: canónigos, espargos e tomate cherry. Tenho de confessar que estava tão boa e tão bem temperada, que cometemos essa suprema ousadia de pedir uma terceira dose quando as duas primeiras acabaram. Uma ousadia que obrigou o cozinheiro dos olhos esbugalhados a suspirar quando recebeu o pedido, a levantar-se a custo do seu lugar e a preparar tudo com um ar ostensivamente contrariado.

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    O serviço

    O serviço de mesa foi simpático, atencioso e irrepreensível. O problema é que, no Stash, o serviço não acaba na mesa. Como a cozinha está aberta para a sala, os suspiros junto ao fogão ouvem-se junto ao prato.

     

    O bom 

    A sanduíche de bife marmoreado

    O mau

    A sanduíche de sapateira

    O péssimo

    Os suspiros e o revirar de olhos do cozinheiro de serviço

     

    Uma óptima sanduíche para si onde quer que esteja,

    Ele

     

    fotos: stash; casal mistério

     

    6 thoughts on “o que é que faz quando um cozinheiro o recebe com um ar contrariado?

    1. Já fui duas vezes ao stash e das duas vezes gostei muito das sandes, incluindo a de sapateira. Concordo com a análise feita do sabor da sande de sapateira, contudo atendendo ao meu gosto pessoal, gostei da mesma. O serviço à mesa foi sempre muito cordial mas efectivamente daquela cozinha não vêm “bons ares” e realmente fazem-se notar, dado o espaço diminuto da sala.
      O que me desagradou da última vez foi que a minha sande quando foi servida trazia um cabelo. E a funcionária apercebeu-se. É certo que eu não reclamei (até porque não estava na comida e também não fico enojada com isso), mas ela apercebeu-se e comunicou à cozinha. Pois nem um desculpe ou o não cobrar pela sande servida com um cabelo. Isso sim estranhei e não me caiu no goto. Não fiquei com vontade de voltar.
      Claudia

    2. Também já fui a este local e não gostei nada do serviço, nem do hambúrguer que pedi. As batatas fritas com alecrim, realmente foi o melhor.

    3. Fui lá uma vez, e tentei outra, porque embora no horário anunciasse que abria ao meio dia, as 12h 5 , vieram abrir a porta com um pouco simpático”ainda não estamos prontos”. Mais nada.
      Insisti, e da 2 vez o meu casaco ficou a cheirar tanto a comida que teve de ir para a lavandaria.
      Nunca mais lá fui. Um hambúrguer + conta da lavandaria fica me mto caro para um almoço.

    4. Considero-me cliente assídua deste espaço e simplesmente adoro!
      Penso que este tipo de comentários são desnecessários porque quando algo não corre bem devemo-nos pronunciar de imediato e não esperar para desabafar como ato de cobardia!
      Além do mais penso que todos nós temos dias bons e dias menos bons! Concerteza nos vossos trabalhos ( ou empregos) também se pode passar o mesmo. As pessoas estão a trabalhar e já pensaram por acaso o que podem prejudicar os funcionários com este tipo de comentários? Será que eles um dia poderão criticar o vosso trabalho?
      Quanto o gostar ou não gostar todos têm esse direito!
      Obrigado

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