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casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

o restaurante com a cozinha mais criativa do porto

Mal me sentei à mesa do Semea, a primeira coisa que vi foi o tampo de madeira impecavelmente limpo, por baixo dos pratos pretos elegantes, dos talheres cuidadosamente colocados e dos guardanapos imaculadamente brancos. A segunda coisa que vi foram quatro gotas de água estrategicamente alinhadas em quadrado no centro da mesa. Cheguei a pensar que pudesse fazer parte da apresentação minimalista do restaurante, mas não: as outras mesas não tinham direito a gotas. Olhei para a frente, confirmei narizes, verifiquei lenços de papel, mas nada – entre os Mini-Misteriosos, não havia constipações.

Ainda fiquei pacientemente à espera de ouvir um espirro descontrolado da minha querida e fungosa Mulher Mistério, mas a expectativa foi interrompida por mais uma gota directamente vinda do tecto. Na ponta da mesa, outra pequena poça confirmava as minhas mais encharcadas previsões: íamos ter o nosso primeiro Jantar Mistério à chuva. 

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Perante o cenário de uma paciente tortura chinesa, com um pingo a cada 20 segundos, ao longo de todo o jantar, resolvi avisar a simpática empregada. A resposta foi um pedido de desculpas e uma pequena taça para ir recolhendo as gotas da chuva.

Depois de confirmarmos que não havia outra mesa disponível para trocarmos e de estudarmos arquitectonicamente a sala, finalmente encontrámos uma solução menos ruidosa do que a taça cheia de água a acolher pingos em cima da mesa: puxámos a mesa para o centro da sala e conseguimos resolver o problema sem ter de vestir a gabardine.

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A ementa 

Esta hipótese de ter de jantar debaixo de um guarda-chuva podia antever uma refeição catastrófica, mas não. Foi apenas a constação de que o Semea não é um restaurante para as chuvas de Inverno do Porto (sim, fomos lá ainda no Inverno). No entanto, como já estamos em plena Primavera com corpinho de Verão, acho que é seguro experimentar aquela que, para mim, é uma das melhores e mais criativas cozinhas do Porto.

Do mesmo chef do Euskalduna Studio, aqui vai encontrar ingredientes saborosos, muitíssimo bem cozinhados e ainda mais bem apresentados. Os produtos são biológicos e variam regularmente dependendo do que está fresco em cada época. Não há necessidade de molhos extravagantes nem de temperos exagerados. Os maravilhosos ingredientes são suficientes para fazer pratos divinais. E isso percebe-se mal se olha para...

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...O couvert 

O pão é, para mim, dos alimentos mais simples e mais extraordinários. Sou capaz de comer um pão banal, mas sou incapaz de resistir a um pão colossal. E isso percebeu-se no Semea quando, no final do jantar, olhei para a conta e confirmei as seis doses de pão consumidas por quatro pobres almas. Eu sei, é um exagero! Mas também é um exagero aquela côdea estaladiça a cada toque do dedo mindinho, aquele miolo macio e fofinho a pedir para ser mastigado, aquele sabor suavemente ácido e muitíssimo viciante, aquela consistência leve que parece incapaz de encher qualquer estômago.

Se já não tivesse provado o imbatível pão do restaurante Prado, em Lisboa, diria que este pão caseiro de massa mãe do Semea era o melhor do momento (€2,50 o couvert).

A acompanhar, veio um delicioso e surpreendente paté de peixe fumado, com uma equilibrada combinação de sabores que deixou a minha querida Mulher Mistério em êxtase (tudo o que lhe permita substituir a manteiga é uma vitória para a balança).

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Os petiscos 

Todos os pratos no Semea são petiscos para dividir. Nós começámos com um paté de foie gras acompanhado por um macio marmelo cozido e por uns estaladiços palitos de brioche tostado (€5). A combinação do paté com o marmelo doce estava agradável, mas, para mim, o paté sabia pouco a fígados.

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A experiência melhorou ligeiramente com uns saborosos mexilhões com aipo e malaguetas laminadas (€7) acompanhados por – surpresa da noite – mais duas estaladiças fatias do tal pão divinal do couvert.

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O primeiro grande momento da noite aconteceu quando vislumbrei a chegar no horizonte, qual John Wayne a sair do pôr-do-sol, uns fenomenais nacos de abóbora tostada com um espectacular queijo chèvre derretido por cima e um delicioso molho feito com mel, vinho Moscatel e óleo de pinheiro (€4,50). Tudo ali é fantástico: a textura macia da abóbora, as pontas tostadas, a suavidade do molho, o queijo derretido e até essa verdadeira inovação, para esta pobre boca, que dá pelo nome de óleo de pinheiro.

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A fasquia continuou tão alta como a vara do Serguei Bubka quando nos trouxeram a extraordinária raia (€9,50). A raia é um dos meus peixes preferidos. Suave, macia, suculenta e com uma camada de gordura que lhe dá um sabor único, o mais difícil é, no entanto, não a deixar tornar-se demasiado enjoativa. Esta vinha com uns fabulosos sucos de carne e com uma extraordinária beurre noisette que é aquela manteiga tostada que fica com um inimitável sabor a frutos secos. Tudo isto combinado só podia resultar num prato fabuloso.

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A festa seguiu com um agradável bacalhau à Brás (€8). Não é o bacalhau à Brás extra cremoso do José Avillez pré-Dono-Disto-Tudo ou do Afonso, em Mora, mas vinha suficientemente húmido e com umas deliciosas batatas palha por cima. Lembra-se das batatas Pala Pala, dos anos 80? São essas mesmo. E a vantagem é que são colocadas por cima de tudo o resto, o que lhes permite manter a textura hiper-estaladiça.

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Antes de passarmos ao prato de carne, ainda experimentámos a açorda vegetariana com ovo estrelado e tomate (€5,50). Estava com uma agradável consistência e até saborosa, mas quem me tira uns suculentos camarões de uma açorda, tira-me tudo – ou quase.

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Os petiscos só terminaram quando chegou a codorniz assada (€6,50). Bem tostada por fora e deliciosamente pincelada com uma finíssima camada de gordura que a tornava muito mais suculenta, trazia ainda um fantástico molho picante feito à base de gengibre, malagueta, alho, sal e um discretíssimo toque de açúcar.

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Para acompanhar tudo isto, pedimos um cremoso e saudável puré de aipo (€2) e uma fantástica couve assada e bem tostada (€4) servida com um óptimo vinagrete e com um crumble crocante de pão frito.

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As sobremesas 

Lembra-se de eu ter dito que esta era uma das mais criativas cozinhas do Porto? E agora lembra-se do Dom Rodrigo, aquele imbatível doce algarvio feito com fios de ovos, ovos moles com amêndoa e canela e embrulhado em papel de alumínio?

Pois bem, o Dom Rodrigo do Semea (€5,50) tem tudo isto feito de uma maneira completamente diferente e surpreendente. Em primeiro lugar, em vez dos tradicionais fios de ovos embebidos nos ovos moles, o que lhe trazem aqui são uns finíssimos e estaladiços fios de batata doce palha mergulhados num delicioso creme de ovos moles. Depois, no lugar da canela em pó polvilhada por cima, tem uma agradável bola de gelado de canela. Basicamente, estão cá todos os sabores a que se juntam novas texturas. Eu adorei a experiência e fiquei fã desta invenção.

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Mas há mais. O brownie com nozes (€5,50) leva uns fantásticos morangos macerados em picle (além de outra bola de gelado de canela) e o crumble de maçã (€5,50) é feito com crumble de amendoim (além de levar uma sempre irresistível bola de gelado de caramelo salgado).

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O serviço 

Há poucas coisas mais contagiantes do que ouvir alguém falar apaixonadamente de comida. E a forma como os empregados do Semea descrevem cada prato que trazem para a mesa, explicando detalhadamente todos os ingredientes e pormenores que o tornam numa escolha irresistível, parece a maneira como um pai conta os dois primeiros passos do filho.

Se a esta paixão ainda juntarmos um serviço rápido, simpático e atencioso, então até podíamos acabar o jantar ensopados em chuva caída do tecto sem uma única queixa.

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O ambiente 

O espaço é pequeno e minimalista, em tons de castanho, um bocadinho ao estilo restaurante japonês. Não tem muito espaço entre as mesas, mas é possível jantar sem se sentir sentado ao colo do casal do lado. 

Além disso, fica na Rua das Flores que, para mim, é das ruas mais encantadoras do Porto.

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As crianças 

Não tem menu infantil.

 

O bom 

O serviço rápido sem encher a mesa com todos os pedidos ao mesmo tempo

O mau 

A chuva a cair do tecto

O óptimo 

A criatividade e frescura dos ingredientes, em especial a abóbora com chèvre, a raia, a codorniz e o Dom Rodrigo

 

Um óptimo jantar para si onde quer que a chuva esteja,

Ele

 

fotos: semea; casal mistério

 

Nota: Todas as despesas das visitas efetuadas pelo Casal Mistério a restaurantes, bares e hotéis são 100% suportadas pelo próprio Casal Mistério. Só assim é possível fazer uma crítica absolutamente isenta e imparcial. 
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Semea

Rua das Flores, 179, r/c, Porto

4ª a Domingo, das 12h às 15h e das 19h às 23h

Tel: 938 566 766