um almoço de verão em cima da praia no trinca espinhas

    O cenário é tenebroso: atrás temos duas chaminés gigantescas que parecem poluir mais do que um Fiat 127 de 1983; à frente há uma praia com uma areia tão cinzenta como o cabelo da Cruella de Vil. No centro está aquele que é considerado um dos melhores restaurantes da costa alentejana, o Trinca Espinhas. O problema é que ser considerado não é o mesmo do que simplesmente ser. E nós não descansámos enquanto não esclarecemos a dúvida dentro destas misteriosas cabecinhas.

    O serviço 

    Chegámos lá num destes magníficos dias de Verão em que o vento sopra mais forte do que a turbina de um Airbus A340. Não era fim-de-semana (sim, resolvemos tirar um dia de férias para colar ao fim-de-semana já que ainda não deu para irmos de vez), às 18h o restaurante estava vazio. Entrámos directamente na esplanada e vimos duas simpáticas senhoras com uma criança sentadas dentro da sala do restaurante. Estavam as duas vestidas de preto, por isso presumimos que, à falta de qualquer enterro nas redondezas, fossem empregadas de mesa.

    Fizemos um sinal com a mão através do vidro. Elas responderam com outro sinal com a mão para nos dirigirmos até à porta ao lado delas. Quando lá chegámos, explicaram-nos pacientemente que o restaurante só abria às 19h, até lá serviam apenas petiscos na esplanada. Eureka! Era isso mesmo que precisávamos. Nova paciente explicação: não serviam na esplanada, teríamos de ir buscar a comida ao balcão. Não tem problema: estamos prontos para andar o que for preciso entre a mesa e o balcão por uma decente dose de amêijoas. E foi neste momento que o Espírito Santo (o da Igreja, não o do banco) desceu sobre a senhora e uma luz lhe ilucidou que não havia nada que pudesse fazer para nos demover de comer ali. Posto isto, reconsiderou: visto que havia mais empregadas no restaurante do que mesas ocupadas, poderia ser um tanto ou quanto ridículo obrigar-nos a dar quatro passos para ir buscar cada prato que estivesse pronto num restaurante totalmente vazio. E a partir deste momento, a disponibilidade da senhora mudou radicalmente e ofereceu-se para nos servir: passou a ser uma empregada de mesa e não uma empregada de cadeira.

    A ementa 

    As entradas

    A ideia era comer apenas umas amêijoas, mas nem sempre a ideia é o resultado final. Começámos pelas amêijoas – que estavam boas mas podiam ser maiores –, depois passámos para umas ostras ao natural – que eram definitivamente anãs – e a seguir mergulhámos num prato de favinhas com molho verde – finalmente a mania das pequenezas compensou. Esta foi a primeira boa surpresa da noite, depois da indiferença das amêijoas e da desilusão das ostras. Com um molho à base de alho, coentros e azeite, estavam deliciosas, pequeninas e leves. Tinha pedido tranquilamente outra dose, não fosse a minha querida Mulher Mistério ter percebido que entretanto já eram 19h e podíamos passar directamente dos petiscos para o peixe.

    Mas antes ainda houve tempo de pedir um maravilhoso queijo fresco tipicamente alentejano e artesanal com tomate e rúcula e uma salada de polvo normalíssima.

     

    O peixe

    Quando chegámos aos pratos a sério, percebemos que tínhamos de fazer opções. E, depois deste festival de entradinhas, não havia muita margem de manobra para grandes peixeiradas. As crianças seguiram felizes e contentes com uns hambúrgueres em cima do prato (custa-me ver alguém comer hambúrgueres num restaurante em cima do mar, mas enfim…) e nós fomos à procura do peixe mais pequeno que houvesse. 

    Com uma escolha muitíssimo reduzida (parece que tinha acabado tudo à hora do almoço), optámos por dois salmonetes de 200 gramas que felizmente tinham sobrado. Demoraram um pouco a grelhar porque ainda foi preciso acender o lume (o restaurante abre às 19h, mas o lume só às 20h…), mas vieram para a mesa fantásticos, fresquíssimos e muito bem grelhados.

    A sobremesa

    É escusado dizer que, depois de tudo isto, não houve um centímetro quadrado de estômago disponível para qualquer migalha de doce. Seguimos directamente para os cafés enquanto víamos o pôr-do-sol em cima do mar – a praia torna-se muito mais bonita à medida que a luz vai diminuindo.

    O ambiente 

    A esplanada está dividida em duas zonas: uma coberta por palhinhas e com mesas de madeira e cadeiras de realizador e outra sem sombras e com cadeiras e mesas da Coca-cola. É escusado dizer em qual das duas zonas ficámos. Continuo e continuarei até ao último fôlego a fugir das cadeiras da Coca-cola com a mesma velocidade com que os jogadores de Portugal fugiram do Mundial no Brasil. 

    O interior também não é nada de se deitar fora: em tons de branco e azul desbotado, tem um ar cool e acolhedor.

     

    Resposta à pergunta inicial: não estamos no melhor restaurante da costa alentejana, mas quem tem estas favinhas com molho verde tem quase tudo.

     

    O bom 

    Os salmonetes

    O mau 

    As chaminés e a praia

    O óptimo  

    As favinhas com molho verde

     

    Um bom almoço na praia para si onde quer que esteja,

    Ele

    5 thoughts on “um almoço de verão em cima da praia no trinca espinhas

    1. Nunca entrei nesse restaurante mas fartei-me de passar à porta a caminho de Porto Covo. O pior dessa zona é mesmo essas malditas chaminés. Há dias em que é horrível. O cheiro chega a Porto Covo. É o que basta para estragar um dia de férias.
      Esse restaurante é, muitas vezes, mencionado como sendo excelente mas eu sempre desconfiei que havia aí um bocadinho de presunção.
      Bom domngo.

    2. Boas,

      Como frequent user ” anónimo, desde há muitos anos que uso e abuso deste, não diria magnífico, mas muito bom local para desfrutar de petisco a meio da tarde de praia de dia de semana ou de um belo almoço / jantar ao fds

      Apenas uns pequenos comentários para esclarecer as areias mais escuras e as chaminés:
      – a areia é escura, como muitas das primeiras praias desta magnífica costa abaixo de Sines (e dos açores pelos mesmos motivos), devido á erosão constante das pedras/ rochas dos inúmeros molhes dos portos de Sines
      – as chaminés são de uma central termoeléctrica , que resumidamente queima carvão para produzir electricidade. Não emite cheiros ou outros fumos tóxicos.

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      Boas, <BR><BR>Como frequent user " anónimo, desde há muitos anos que uso e abuso deste, não diria magnífico, mas muito bom local para desfrutar de petisco a meio da tarde de praia de dia de semana ou de um belo almoço / jantar ao fds <BR><BR>Apenas uns pequenos comentários para esclarecer as areias mais escuras e as chaminés: <BR>- a areia é escura, como muitas das primeiras praias desta magnífica costa abaixo de Sines (e dos açores pelos mesmos motivos), devido á erosão constante das pedras/ rochas dos inúmeros molhes dos portos de Sines <BR>- as chaminés são de uma central termoeléctrica , que resumidamente queima carvão para produzir electricidade. Não emite cheiros ou outros fumos tóxicos. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Abracinhos</A>
    3. E qual é o cheiro de uma central termo eléctrica ???
      Ninguém aprecia o cenário, mas daí a haver cheiro é pura invenção. Mais uma coisa, a areia é preta/escura devido à sua origem vulcânica.
      Estudasses….

    4. Da próxima vez por esta zona experimentem o Cais da Estação em Sines 5* ou o Marquês em Porto Covo (a gerência é a mesma mas o Cais é melhor que vão ficar admirados por existir um restaurante assim numa zona como esta). Cumps

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